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Anjos urbanos sobre duas rodas

Publicado em: 16 jan 2012 por Enzo Bertolini

Personagem dos quadrinhos da Turma da Mônica, o Anjinho sempre se destacou por correr para ajudar e proteger os amigos do bairro do Limoeiro. Na vida real, muitos atribuem aos anjos situações onde foram salvas ou ajudadas. No trânsito maluco de São Paulo, há mais de uma centena de anjos sobre duas rodas, que todos os dias se colocam a disposição para ajudar ciclistas iniciantes a se capacitarem a pedalar com mais seguranças por ruas e avenidas.

João Paulo Amaral, mais conhecido como JP, e sua famosa bicicleta-caixote, é um dos primeiros bike-anjo e, gentilmente, concedeu a entrevista abaixo ao Bike Pedal e Cia. Se você acredita em anjos, já viu algum, ou já pedalou com algum, confira o bate-papo e deixe seu comentário.

Bike Pedal e Cia – O que é o Bike Anjo e como surgiu o projeto?
João Paulo Amaral – Bike Anjos são ciclistas urbanos experientes que voluntariamente ajudam pessoas que querem usar a bicicleta como meio de transporte, na cidade, com segurança. Contamos com uma plataforma online (bikeanjo.com.br) onde essas pessoas podem solicitar gratuitamente um bike anjo para ajudá-las a pedalar, bem como dicas e novidades sobre o mundo da bike.

Bike Anjos existem há muitos anos. Muitos de nós, voluntários do projeto, também começamos a usar a bicicleta como meio de transporte graças a um bike anjo. Mas a interface que montamos (site/email/redes sociais), com o sistema de atendimento a interessados por meio de um cadastro de voluntários mapeado e regional, começou em dezembro de 2010.

BPC – Em quantas cidades existe o projeto?
JP Amaral - O Bike Anjo já chegou a 37 cidades e tem aumentado semanalmente, inclusive em outros países. Logo no começo do projeto uma associação de ciclistas de Portugal começou a iniciativa adotando o nome BikeBuddy e mais recentemente estamos articulando com ciclistas de Chicago (Estados Unidos) para começarem a rede por lá.

BPC – Quantos bike anjos existem em São Paulo e como um ciclista iniciante pode pedir ajuda?
JP Amaral – Em São Paulo estamos com cerca de 150 voluntários distribuídos em todas as regiões, mas claramente concentrados no centro expandido. A pessoa que queira aprender pedalar (no trânsito ou não) ou que queira apenas alguma orientação, como ajudar para definir a melhor rota para o trabalho, basta preencher o formulário no link bikeanjo.com.br/bikeanjo


JP foi bike anjo da Andrea em seu primeiro retorno para casa

BPC – O que um bike anjo ensina para o ciclista iniciante?
JP Amaral – Isso vai depender muito da necessidade do ciclista iniciante, mas tem um caminho básico por qual quase todos os iniciantes passam. Primeiro o bike anjo orienta o iniciante como se preparar para a primeira pedalada, ou seja, regulagem da bicicleta, equipamentos necessários e a rota que farão até o destino desejado. Na pedalada o bike anjo irá orientar o iniciante sobre as noções básicas de segurança no trânsito para dar mais confiança e evitar acidentes, bem como orientações para se pedalar em diferentes situações, como subidas, vias de fluxo mais rápido ou chuva. Durante esse processo o bike anjo acaba tirando muitas dúvidas específicas do iniciante, por exemplo sobre como fazer se no trabalho não há bicicletário ou chuveiro.

BPC – Recentemente o projeto buscou apoio financeiro via crowdfunding (financiamento coletivo). Qual foi o resultado?
JP Amaral – Nós entramos no segundo semestre de 2010 com um processo de crowdfunding no Catarse, onde você deve estabelecer um prazo e uma meta de recursos para atingir, e a experiência foi incrível! No final não só conseguimos alcançar nossa meta, mas obtivemos vários outros resultados. Mobilizamos mais pessoas para ajudarem no projeto, ficamos mais conhecidos, fortalecemos e estruturamos o Bike Anjo e as perspectivas para novas ações cresceram.

BPC – Como o dinheiro está sendo aplicado?
JP Amaral – O dinheiro que conseguimos no Catarse servirá para suprir nossa maior demanda de hoje: os pedidos de bike anjo. Estamos montando um projeto de um novo sistema que tenha um pouco mais de inteligência para facilitar e agilizar a conexão entre os bike anjos e os ciclistas iniciantes. Já temos investido também em uma estrutura melhor do projeto, como materiais para oficinas e passeios, e após a formalização do novo sistema pretendemos nos dedicar mais em ações que possam disseminar ainda mais o uso da bicicleta, como oficinas, passeios e aulas coletivas.

BPC – Você já foi convidado para falar sobre o projeto em alguns fóruns no exterior, correto? Como foi a receptividade?
JP Amaral – Correto. O projeto foi selecionado no programa Bayer Jovens Embaixadores Ambientais e fui apresentá-lo na Alemanha para membros da empresa responsável pelo programa, membros da Organização das Nações Unidas (ONU) e outros 50 jovens de todos os cantos do mundo. Fiquei realmente impressionado com a receptividade e com a identificação das pessoas com o Bike Anjo. Todos me contavam da sua experiência de bicicleta, inclusive em cidades supostamente ideais para a bicicleta, e me diziam que precisavam de um bike anjo. Percebi que bike anjo não é uma prática estritamente necessária para as cidades desorganizadas do Brasil, mas para várias outras cidades do mundo.

BPC – Quem quiser se tornar um bike anjo o que é preciso ser feito? Vocês passam instruções do que ensinar ao ciclista iniciante?
JP Amaral – Quando começamos o projeto não tínhamos ideia da quantidade de gente que se apresentaria disposta a contribuir como voluntário do Bike Anjo. Hoje, com a estrutura limitada que temos, nos adaptamos e as pessoas que querem ser bike anjo devem entrar em contato com a gente pelo email bikeanjo@gmail.com. Nós enviaremos um formulário para se cadastrarem na nossa rede com algumas perguntas sobre sua experiência com bicicleta para validarmos o seu conhecimento e oferecemos uma cartilha com orientações de como o bike anjo deve se comportar na hora de atender um iniciante. Com as ações e mídias sociais do Bike Anjo acabamos conhecendo melhor os bike anjos e “alinhamos o discurso”, mas a nossa intenção com esse novo sistema é justamente dar mais atenção para a instrução dos bike anjos e propagação da iniciativa para que, justamente, tenhamos uma noção coletiva de como orientar um iniciante.


A bike repórter Renata Falzoni também é voluntária do Bike Anjo

BPC – Nos conte um pouco mais sobre você. Como começou seu relacionamento com a bicicleta?
JP Amaral – Meu relacionamento com a bicicleta sempre foi para lazer, de fim de semana, até começar o meu primeiro trabalho. Comecei a ir para o trabalho de ônibus e percebia como o congestionamento afetava minha rotina e minha qualidade de vida. Durante um período de férias da faculdade decidi ir para o trabalho de bike e, obviamente, fiz o mesmo trajeto em quase metade do tempo do que se tivesse ido de ônibus ou de carro. Depois fui percebendo os ganhos que tive com saúde, qualidade de vida e, principalmente, percepção da cidade. Este relacionamento se fortaleceu quando fui para o Fórum Social Mundial de 2009, em Belém, e decidi ajudar os colegas da cidade a organizar uma Bicicletada Social Mundial. Me envolvi tanto com aquilo e achei o movimento da Bicicletada (Critical Mass) tão incrível que voltei pra São Paulo com a vontade de fazer mais e mais pela bicicleta e pela cidade.

BPC – Com que frequência e para que você utiliza a bike?
JP Amaral – Minha bicicleta é meu meio de transporte e não tenho outro. A utilizo para todas as minhas atividades rotineiras da semana, mas também para passear, viajar e mobilizar.

BPC – Quantas bikes você tem?
JP Amaral – Considero que tenho apenas uma bike, a famosa bike-caixote (ela tem um caixote de feira acoplado no bagageiro). É uma bicicleta que utilizo tanto para pedalar na cidade quanto para viajar. Tenho uma bicicleta dobrável para usos esporádicos e por ser prática em certas situações (pegar carona de carro ou no transporte público).

BPC – Você costuma fazer cicloviagens?
JP Amaral – Sim. Cicloviagem é minha paixão, talvez tanto quanto o cicloativismo na cidade. Comecei indo de São Paulo até Sorocaba (100 km) e em menos de um ano já estava fazendo cicloviagens de longa distância fora do país – de Berlin, na Alemanha, até Copenhague, na Dinamarca (veja vídeo da viagem aqui). Recentemente, entre o Natal e Ano Novo de 2011, realizei um sonho antigo de pedalar nas ilhas do litoral sul de São Paulo, indo de Cananéia até Curitiba passando pela Ilha do Cardoso, Superagui, Ilha do Mel e Paranaguá.

BPC – Você acredita que São Paulo pode ser uma cidade mais amistosa para o ciclista?
JP Amaral – Acredito que São Paulo já esteja nesse processo. Não necessariamente pelo investimento do poder público, pois ainda é tímido, mas porque o trânsito tem sido mais amigável para o ciclista. Por conta da visibilidade crescente da bicicleta como meio de transporte, as pessoas tem se conscientizado mais e mais que a bicicleta faz parte do trânsito, que uma bicicleta a mais pode significar um carro a menos na rua, contribuindo com uma cidade mais agradável, com menos congestionamento, e isso tem trazido mais respeito e convívio. Ou seja, acredito, sim, que São Paulo tem jeito para ser uma cidade amistosa para o ciclista.

BPC – Deixe um recado final aos leitores do Bike Pedal e Cia.
JP Amaral – A todos os leitores do Bike Pedal e Cia quero deixar aqui meu pedido de união. A bicicleta é uma máquina individual, mas também um instrumento de união incrível. Aproveitemos este instrumento para nos fortalecer, independente da sua finalidade do uso da bicicleta. Todos queremos uma cidade melhor, mas para isso precisamos nos mexer. Convido todos a participarem desse momento incrível de transformação das cidades brasileiras por um trânsito mais harmonioso. Bora pedalar!


JP e sua famosa bike caixote

Fotos e logo: Divulgação Bike Anjo

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