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Bicicleta parada não leva a nada
No centro de São Paulo, um grupo de apaixonados por bicicleta têm se reunido às sextas-feiras a noite para investirem seu tempo de descanso e lazer fazendo manutenção de bicicletas usadas. Eles são, o que se pode chamar de empreendedores coletivos, pois têm dedicado tempo, esforço e dinheiro para que bicicletas que estavam encostadas se transformassem em objetos de desejo por aqueles que não têm uma companheira de duas rodas.
Assim está começando o projeto Coletivas, que quer espalhar bicicletas recicladas (ou recicletas) por São Paulo em uma cadeia de empréstimo gratuito inspirado no Couch Surfing. Para conhecer um pouco mais de como surgiu a ideia e o que foi feito até o momento, o Bike Pedal e Cia acompanhou uma oficina onde a Tica foi ressuscitada com muito charme.
No Bixiga, reduto italiano e tradicional bairro da cidade, a desmontagem e limpeza das peças da Tica começou ao som de Bob Dylan. Além de deixar o ambiente mais relax, serviu para abafar o funk pesado que vinha do vizinho. A Michele, além de cuidar da trilha sonora, se empenhava em deixar a coroa da Tica brilhando. O Rogério, vulgo Urbanit, mestre das ferramentas e mentor do pessoal da manutenção, estava dando uma nova cor à cestinha que a Tica ganhou de presente da Michele. Já o Fabrício, quebrava a cabeça para remontar um freio, enquanto falava com a reportagem do BPC. E o Afonso ficou responsável pela lavagem de algumas peças no tanque e pelo pedido da pizza no final da noite, além de mostrar seu palacete à reportagem.
Em um espaço pequeno a risada e a camaradagem rolam solta. A Michele, mesmo depois de esfolar a mão limpando a coroa e com um fiapo de Bombril no dedo, mantém o sorrisão no rosto. O Rogério divide sua história de amor com a bike com o pessoal e como ele vendeu sua bike para comprar a aliança de casamento. O Fabricio, atenta a tudo, registra com fotos o momento e comenta sobre seu sonho de sair em uma grande viagem de bicicleta com o amigo Afonso. Com um chá quente na mão, o Afonso conta da sua relação com a dona da casa e com seus colegas de moradia, e como planeja para um futuro próximo que todos os cinco moradores da casa possam pedalar pela cidade juntos.
Para conhecer um pouco mais sobre esse coletivo, acompanhe a entrevista coletiva (com o perdão do trocadilho) abaixo e se apaixone por essa iniciativa. Afinal “bicicleta parada, não leva a nada”.
Bike Pedal e Cia – Como surgiu o Coletivas e como vocês se envolveram?
Rogério Vieira Lopes (Urbanit) – Um email foi o estopim do projeto. O JP mandou uma mensagem sobre bike usada. Eu sabia de uma pessoa que tinha uma Caloi Ceci para vender e fui até esse prédio onde o zelador estava vendendo essa bicicleta para liberar espaço. Quando eu cheguei lá ela já tinha doado a bike, no fim ele acabou nem vendendo. Em um domingo eu fui a um prédio (ele trabalha com manutenção de elevadores) e vi algumas bikes antigas lá paradas, cheias de poeira e nesse mesmo email do JP eu já emendei, “bike usada – plano de doação”. Depois o Mauricio acrescentou uma ideia, o Fabricio também e a coisa foi crescendo. Ou seja, o Coletivas não tem um criador, ele é coletivo, é como uma flor de girassol “todos formam um tudo”.
Fabrício Muriana – A gente conversava na lista da Bicicletada que sempre aparecia alguém que precisava de uma bicicleta para fazer um rolê. E alguém sempre emprestava. Principalmente no dia da Bicicletada, o Maurício, que não está aqui, ele dava um jeito de arranjar mais bikes porque a casa dele era perto da Bicicletada. Nós percebemos que há uma demanda latente por pessoas que começaram a pedalar e um estoque de bicicletas paradas muito grande. Ele só não está centralizado em algum lugar online. Basicamente a gente começou a pensar como isso poderia ser feito e assim foi nascendo a ideia das Coletivas, inclusive com eleição de nomes para o projeto.
Michele Mamede – O pessoal estava para fazer a segunda reunião e alguém postou um link de organização na Alemanha que fazia bicicletas de bambu. Por causa disso, surgiu a discussão de montarmos uma bicicleta de bambu. O Rogério (Urbanit) perguntou se alguém falava alemão, eu me voluntariei e fui parar na reunião sem nem saber do que se tratava. Eles explicaram o que era o projeto e eu adorei. No final, a ideia de montar uma bicicleta de bambu não deu certo, porque a ONG faz workshops e ensina a montar esse tipo de bicicleta lá. E não tinha como ninguém ir para lá. Logo na sequência surgiu uma doação de bicicletas de um condomínio e nós decidimos ir em frente com o que tínhamos.
Semana passada (9/9) a gente desmontou e montou a primeira bicicleta. O Rogério entende muito de bicicleta. Sinceramente, de mecânica de bicicleta eu não entendo de nada. Eu aproveito para aprender e colaborar. Esse projeto é super válido para quem não tem bicicleta. Eu mesmo não tinha uma até pouco tempo atrás. Na verdade eu peguei a da minha irmã emprestada e trouxe de São Paulo para poder usar (ela morava em Itanhaém). Esse é um projeto que vai beneficiar pessoas como eu.
BPC – A primeira doação veio de onde?
Fabrício – Nós recebemos nossas primeiras bikes de um condomínio na Vila Mariana.
BPC – E como surgiu essa doação? Quem conseguiu fazer essa ponte entre o condomínio e vocês?
Fabrício – Por meio de uma rede de contatos. Uma garota chamada Gabriela Kato acompanhava as discussões no grupo da Bicicletada e disse que estava para liberar umas bikes no condomínio de um amigo dela.
Rogério (Urbanit) – era do sogro dela.
Fabrício – A gente topou e pediu que ela pegasse o contato de alguém do condomínio para entrarmos em contato. Eu liguei, falei com o zelador e ele disse: “não há problema em doar as bikes, mas tem que ser amanhã”. E nós fomos buscar no dia que ele pediu.
É tudo meio interligado, uma rede de redes. Ela faz parte da lista da Bicicletada e apesar de nunca ter ido à nenhuma reunião do Coletivas, viu que estava rolando o projeto, deu um toque e a gente pegou as bikes no condomínio. Aliás, precisamos agradecê-la.
BPC – Quantas bicicletas vocês têm no projeto?
Fabrício – São duas bicicletas aqui (casa do Anderson), mais uma na Sumaia, outra na minha casa, mais uma Caloi 10 Jovem, que a gente ainda não sabe o que vai fazer, e mais sete bicicletas de criança na casa do Cesar, amigo do Urbanit.
BPC – Qual o destino que vocês vão dar para essas bicicletas infantis?
Fabrício – Nós temos duas opções de modelo. Uma delas é emprestar para uma criança durante sua infância toda, até que a idade ou tamanho dessa criança não permita que ela use mais a bicicleta. A outra opção é coletivizar por meio de um movimento, como o de ocupação do centro. Eu conheço um pouco esse movimento e sei que tem muitas crianças que não têm bicicleta. Então, ao invés de darmos uma bicicleta para cada criança naquele esquema Papai Noel, a gente dá para o movimento e eles coletivizam entre as crianças. Mas ainda vai demorar um pouco para a gente conseguir chegar nelas, porque nosso foco está nas bikes adultas e nosso ritmo é lento. Nosso objetivo não era esse, então essas bicicletas estão em último lugar na prioridade de conserto. Tem muita bike.
Michele – as bicicletas infantis também permitem que a gente faça oficinas com crianças. A criança se mexe, faz exercícios e se motiva para aprender e ter respeito pela bicicleta, compreender que não é só lazer e diversão, mas também transporte, aprender a dividir, pois a bicicleta seria compartilhada com outra criança. Ao trabalharmos com a criança vamos tornar adultos mais conscientes na mobilidade urbana.
BPC – Vocês estão aceitando mais doações? Pergunto por que há em muitos condomínios dezenas de bicicletas encostadas.
Fabrício – Nós queremos doações sim, mas nós não temos como fazer o que fizemos na primeira doação – pegar todas as bikes e levar para um lugar. Se tiver uma doação a gente tem que retirar aos poucos e destinar para diferentes lugares aos poucos. Como as bikes vêm de todos os jeitos, possivelmente teremos que desmontá-las e fazer toda a revisão. A que está na minha casa, por exemplo, a gente só vai montar a corrente, fazer uma manutenção básica e colocar para rodar.
BPC – Vocês já emprestaram uma bicicleta para uma garota na Bicicletada de agosto, certo?
Fabrício – Sim, é a Prima (cada bike será batizada com um nome que a tornará única com sua história). Essa bike foi prometida para um gringo que estava fazendo Couch Surfing, mas ele sumiu, então nós emprestamos para a Marcela, que já está querendo pegar de novo para ficar mais um tempinho. A Prima já está dentro da ideia do projeto. Como qualquer bike que fica parada muito tempo, ela precisa de manutenção, mas ela não foi como as outras, que nós precisaremos desmontar inteira, ela só precisou de alguns ajustes.
BPC – Vocês já pensaram em juntas as ideias e o projeto Coletivas com o pessoal do Oficina Mão na Roda e tentar atingir o maior número de bicicletas possíveis?
Fabrício – A ideia inicial era essa. Mas houve um problema: a gente não podia deixar as bikes lá na sede da Oficina Mão na Roda (na Vila Madalena). Elas não estão rodando e fica inviável fazer a manutenção dessas bikes em um lugar que elas não estarão fixas. O único entrave foi esse, eles não tinham como receber as bicicletas, senão a gente já teria juntado um projeto com o outro.
BPC – Usar um carro para transportar as bicicletas até lá fazer a manutenção e retornar também é uma alternativa…
Fabrício – Se a gente tivesse uma pick up provavelmente a gente faria isso. No dia que a gente foi recolher as bicicletas, o Gustavo, um rapaz da comunidade nos ajudou e nós somos super gratos por isso, porque ele foi com a pick up dele, retirou as bicicletas e levou pra casa do Cesar, amigo do Urbanit. Agora isso não tem como acontecer sempre, pois você teria que ter alguém do grupo que tenha um carro desse tipo e isso não aconteceu ainda. Se pintar alguém com esse transporte será ótimo. Não só para fazer a manutenção. Você imagina que a gente consiga novas doações de bicicleta, a gente precisa de um jeito para transportá-las, senão terá que ser no metrô, no ônibus, na mão, caminhando etc. Ou então como o Urbanit fez. Ele foi na casa do César, deu um “tapa” só para as bikes voltarem a rodar e saímos eu e ele de Caloi Cruiser na avenida Paulista, dando sprint e passando na frente dos carros.
Rogério (Urbanit) – A gente comprovou que elas estavam bem, mesmo que a gente tenha dado só “um talento” rápido, certo Fabrício? Elas rodaram cerca de 7kms.
BPC – Uma das coisas que eu vi no blog do Coletivas é a maneira que vocês estão organizando a hospedagem das bikes, o empréstimo e o compromisso das pessoas. Vocês podem detalhar um pouco de como isso vai funcionar e como vocês pretendem colocar em prática?
Fabrício – Conceitualmente nós temos dois modelos possíveis dentro do projeto para as pessoas entrarem. Uma é como usuário, ou seja, a pessoa que precisa de uma bicicleta para rodar por São Paulo e a outra é como zelador, que é basicamente a pessoa que cuida de uma bicicleta que se tornou coletiva. Previamente, a gente não tinha pensado nesse modelo aqui, que é o do trabalho (manutenção das bikes). Esse lance se deu por conta das bikes que apareceram da doação.
Rogério (Urbanit) – Nós somos muito gratos ao Afonso pelo espaço e a gente está fazendo as coisas aqui no improviso. No meio dessa bagunça organizada, um vai fazendo uma coisa, outro vai fazendo outra.
Fabrício – como definição prévia nós temos os zeladores que vão receber essas bikes que nós estamos cuidando aqui e os usuários, que a gente crê que há uma demanda latente. Esse é o formato definido. A centralização das informações será no site, provavelmente com um aplicativo do Google Maps, para que as pessoas saibam onde as bikes estão. Também haverá um perfil das bikes, algo que a gente definiu lá atrás, no começo da ideia, e a gente chama de Tico e Teco, porque todas as bicicletas vão ganhar um nome, uma identidade própria.
BPC – No site vocês falaram que vão fazer registros secretos nas bikes, isso vai mesmo rolar?
Fabrício – Vai sim, mas por enquanto a gente ainda não definiu como vai ser feita a identificação das bicicletas pelo projeto. Temos algumas ideias no ar e tem que ser a mais barata possível porque a gente não tem verba nenhuma. E o registro secreto a gente ainda vai definir onde vai fazer, individualizado em cada bike, mas é mais para um controle, porque no final das contas, pensa que uma rede das bicicletas coletivas, passe a ter 50, 100 bicicletas. Serão muitas pessoas envolvidas e muita gente vigiando também caso elas sejam roubadas. Acho que esse é o aspecto de segurança que é mais importante.
Rogério (Urbanit) – é um seguro barato, sem custo. Ou seja, os seguros são esses pequenos códigos inseridos no quadro da bike, por exemplo, e os olheiros que conhecem as coletivas.
Fabrício – a gente sabe que quando se rouba uma bicicleta ela é desmontada, então a única coisa que a gente tem são essas marcas que vai ficar além de qualquer desmontagem. A ideia é que isso seja diferente bike a bike e que só o zelador saiba. Mas sinceramente esse é um problema que a gente não está muito preocupado por enquanto. A gente que pedala todo dia, sabe que esse é um problema menor. No Brasil rola muito menos roubo do que em cidades onde o fluxo de bicicletas é maior.
BPC – E os materiais para a manutenção, onde vocês conseguiram?
Fabrício – teve de tudo. As coisas que você trouxe, Michele, você pegou da sua casa né?
Michele – esses produtos de limpeza eu comprei. Mas tem coisas que a gente está doando e tem coisa que a gente está comprando.
Fabrício – nós trouxemos algumas peças para cá que provavelmente serão colocadas em outras bikes. Dessa bike que nós estamos fazendo a manutenção nós ganhamos a doação da cesta da Michele. As peças de reposição que foram cabo, conduíte e sapata de freio custou R$9 tudo. Por enquanto nós estamos colocando do nosso bolso, mas se começar a ficar muito pesado a gente vai ver se tem doação na Bicicletada.
BPC – Vocês têm alguma restrição a receber doação de peças, mão de obra ou dinheiro?
Fabrício – Quando envolve a relação da grana fica mais complicado, senão teremos que ter uma administração central de grana e não é isso que a gente quer. É melhor a pessoa perguntar o que as bikes precisam e comprar a peça. Sobre o restante não temos nenhuma restrição.
Rogério (Urbanit) – Nós queremos focar em doações mesmo.
Fabrício – Acho que hoje o que a gente mais precisa é mão de obra.
BPC – Há um dia fixo para se reunir e fazer a manutenção?
Fabrício – A gente tinha pensado em se reunir às segundas e sextas para isso, mas só rolou de sexta até agora. E a gente define a próxima reunião sempre no final da última.
Michele – na última reunião nós saímos daqui mais de meia-noite, então as reuniões de segunda ficam um pouco mais difíceis.
Fabrício – seguindo o modelo de um outro grupo, nós temos um calendário quase periódico (risos).
BPC – O que é necessário para se tornar um zelador?
Fabrício – As bikes que nós temos hoje já têm zeladores. As próximas bikes vão precisar de novos cuidadores. É só mandar um email que a gente marca para a pessoa visitar a oficina, conhecer o projeto e para gente também conhecer a pessoa.
BPC – A ideia é ter zeladores em todas as regiões da cidade?
Fabrício – Sim.
BPC – Para terminar, o que mais vocês podem falar do Coletivas?
Fabrício – eu quero reforçar o lance das doações de peças. Quanto mais estranha melhor, porque a gente recebe bicicletas de todos os tipos. E mão de obra também. Eu mesmo, uma das coisas que me movem em estar aqui é aprender a mecânica de bicicletas.
Rogério (Urbanit) – é importante destacar também que os pedalantes (eu gosto deste termo) que pegarem as bikes têm que ter zelo. O zelador é o protetor principal da bicicleta e é ele que vai decidir quem vai pedalar ou não. Não vai ter uma restrição, mas irão valer as referências anteriores. Se a pessoa pega a bike, usa e a devolve limpa, isso é ótimo. Se o outro pega uma e instala uma buzininha, está ótimo. Ou seja, a ideia é que o próprio pedalante faça melhorias na bike e ajude a conservá-la, ele terá liberdade para isso. E o pedalante vai ganhar pontos com isso no histórico dele. Se alguém pega uma bike e devolve como a pegou isso é bom, mas se devolver toda “zuada”, vai perder pontos e não terá preferência mais para os empréstimos.
Fabrício – Quando a gente tiver um sistema central no site esse tipo de referência será ótima. É muito parecido com o Couch Surfing, que tem um sistema de referências de quem viajou e de quem recebeu. Se você zonear a casa de alguém, você não vai mais viajar pelo couch surfing e a gente quer implantar isso no Coletivas também.
Para saber mais sobre as oficinas e como colaborar com o Coletivas, acompanhe o site deles: www.coletivas.mobi
Fotos: Enzo Bertolini e Coletivas
Tags:coletivas, couch surfing, empréstimo, projeto, São Paulo1 Comentário
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