“A bicicleta é um meio superior, não só um meio de transporte. É uma coisa transformadora de vida”

16 abr 2012

Tags:, , ,

No coração de um cicloativista nasceu um projeto que terá um grande impacto na vida de 4600 crianças do município de São Paulo: Escolas de Bicicleta. Há muitos anos Daniel Guth sonha com essa utopia do agora de ensinar as crianças de que bicicleta não é só um brinquedo, mas um meio de transporte, um meio de revolução.

Com a assessoria e apoio do especialista em mobilidade urbana dinamarquês, Mikael Colville-Andersen (Cycle Chic e Copenhagenize), Guth, junto com o secretário municipal de Educação, Alexandre Schneider, o Escolas de Bicicleta irá atender 4600 crianças de 12 a 14 anos nos 46 Centros  Educacionais Unificados (CEUs) que farão diariamente o trajeto casa-escola-casa em comboios de 15 a 25 estudantes. Dentro da escola, as crianças terão paraciclos para o estacionamento das bikes feitas de bambu e monitores treinados pela Secretaria, pela Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) e pelo Instituto Parada Vital, para ensinarem desde noções de equilíbrio até regras de trânsito e manutenção das bicicletas. Ultrapassados os muros da escola, os alunos ganham juntos as ruas do bairro.

A entrega das bicicletas acontecerá a cada quatro semanas. Após o início simbólico do programa em Heliópolis, 20 alunos de cada unidade vão receber as bicicletas a partir de hoje (16), passar por quatro semanas de treinamento e abrir espaço para que as próximas 20 recebem as suas. Noventa e dois monitores já foram contratados pela Prefeitura e estão em treinamento. Eles serão responsáveis tanto pelas aulas de trânsito, mecânica e cultura de bicicleta quanto pelos comboios que vão acompanhar as crianças.

Bike Pedal e Cia conversou com Daniel Guth, assessor da Secretaria Municipal de Educação, que investiu R$ 1,3 milhão no programa, e teve acesso aos detalhes de como o projeto está funcionando.

Bike Pedal e Cia – Como surgiu o programa Escolas de Bicicleta?
Daniel Guth – Há muito tempo eu sonhei em tocar esse projeto. A gente vê que culturalmente as crianças ainda têm um contato bom com a bicicleta, diminuiu com o tempo, mas ainda tem. Depois existe um buraco, que ela só vai retomar isso lá na frente. O que faz o jovem esquecer, abandonar, abdicar, por que ele não entende que ele pode levar a bicicleta no resto da vida dele? É claro que tem aí mil questões, como cultura do carro, organização da comunidade, o fenômeno moto, que no Brasil é a coisa que mais cresce nesse país.

Nós recebemos a visita do Mikael Colville-Andersen, do movimento Cycle Chic, em junho do ano passado e em uma conversa ele me falou muito como eram os programas educacionais na Dinamarca nessa área. Eu fiquei alucinado com tudo. Aquelas comunidades todas pensadas para a formação educacional da escola, do aprendizado, deslocamento, segurança e felicidade delas. A bicicleta é um meio superior, não só um meio de transporte. É uma coisa transformadora de vida. Depois que o Mikael retornou para a Dinamarca, eu e o secretário (municipal de Educação, Alexandre Schneider) começamos a articular o programa, como ia ser, quantas fases teriam etc.

BPC – Como foi esse processo?
DG - Primeira coisa a fazer foi avaliar como está a rede com relação a bicicleta. Fiz uma consulta na pesquisa Origem e Destino do Metrô e descobri que 15% dos deslocamentos feitos de bicicleta tinham como destino escola, embora a pesquisa não entre no mérito do que é escola (estadual, municipal, faculdade etc). Isso era bom, porque as pessoas já estavam usando a bicicleta em um número considerável, não era para se desprezar. Precisávamos dar apoio para essas pessoas que já usavam esse meio. Então, nós começamos a instalar paraciclos para o estacionamento das bicicletas nos CEUs e escolas. Nós temos uma parceria com a Secretaria do Verde e Meio Ambiente que nos forneceram uma quantidade boa de paraciclos para nós instalarmos. Com o apoio, a coisa tomou outra dimensão. A rede começou a ver a bicicleta de outra forma. Ciclistas professores e alunos começaram a se conectar. E aí começaram a chover propostas. Entre tantas coisas, descobri uma professora de educação física que desenvolveu uma metodologia só usando bicicleta.

O próximo passo foi estruturar como introduzir a bicicleta no currículo e fazer com que haja interação com os alunos e os equipamentos escolares. A primeira coisa que veio na nossa cabeça foi o CEU, que é um equipamento fantástico, tem um lugar que tem uma comunidade muito forte. Os CEUs foram introduzidos em lugares de IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) muito baixos, de desigualdades sociais e viraram referências nesses lugares. Em novembro do ano passado nós fizemos uma primeira reunião com a direção deles para falar da nossa ideia. Passadas as argumentações iniciais, nós anotamos as críticas e sugestões e fizemos nossa lição de casa. Nós moldamos o programa em cima das nossas diretrizes e com as sugestões das direções das escolas.

No final de dezembro nós assinamos um convênio com o Instituto Parada Vital para nos ajudar com o gerenciamento disso, para contratação de monitores, educação, orientação etc. Depois começamos a ter uma série de reuniões com os CEUs. Cada CEU indicou dois coordenadores que vão acompanhar o projeto lá.

Conversamos com as escolas para saber onde os estudantes moravam, pois isso era fundamental e fomos falar com a CET para fazer parte do processo. Com a CET nós criamos um grupo de trabalho de treinamento e capacitação de todos os integrantes do programa, dos monitores aos educadores. Nós criamos uma metodologia de ensino que compreende leis de trânsito, mecânica e história da bicicleta, fisiologia e desenvolvimento corporal, técnicas de equilíbrio e balanço e habilidades em cima da bicicleta. Todo o treinamento foi baseado em várias experiências brasileiras e do mundo. Os monitores depois de treinados vão para o CEUs e vão pegar a primeira turma de 20 crianças, por um mês em um circuito dentro da unidade para treinar equilibro, postura, habilidades, pedalar com uma mão e sinalizar com a outra etc, tudo sem sair para a rua. Depois de um mês essas 20 crianças que passaram pelo treinamento vão ganhar um certificado simbólico, uma espécie de Carteira Nacional de Habilitação (CNH) – esse exemplo nós pegamos da Dinamarca, onde crianças passam por aulas quando chegam aos nove anos. Na semana seguinte ela está apta a fazer o deslocamento. Nesse momento, os monitores vão continuar com eles, sempre um atrás e outro na frente do comboio. Elas não vão para as ruas despreparadas.

BPC – Por que o programa trabalha com crianças de 10 a 14 anos apenas?
DG - A idade de 10 a 14 anos é a faixa em que as crianças intelectualmente estão no processo de sentir e absorver tanta coisa, de expansão, de criar conceitos próprios. Com 14 anos a criança parte para uma vida que ela pensa diferente dos pais. Como a gente rompe com uma cultura que muitas vezes é do seio familiar. De um pai que é pobre e muitas vezes tem uma bicicleta cujo sonho na realidade é deixar de ter uma, o que é uma maluquice. Então no momento em que dá esse poder, essa estrutura e fortalece o quão bonito isso é, ela vai passar a olhar o pai de outra forma. Você está mexendo com estruturas pesadas. É óbvio que ainda é um embrião, embora nós estejamos começando com 46 CEUs. O sistema que se quebra todo o paradigma pode ser repetido para todo o Brasil, para todo o mundo. Tem que vencer essa etapa.

Foto: Divulgação SME

BPC – E por que foi escolhida uma bicicleta de bambu?
DG – Os quadros feitos de bambu foram criados pelo designer brasileiro Flávio Deslandes, que inventou a primeira bicicleta de bambu em 1995 e hoje desenvolve seus projetos na Dinamarca. Se você comprar a bicicleta esse modelo em um mercado europeu, você vai gastar por volta de US$ 1400,00. É uma bicicleta de luxo, pontual. A bicicleta passou por vários testes antes de ser escolhida por nós.

Um dos diferenciais da bicicleta de bambu é que a gente produz 100% no Brasil. O bambu vem de diversas partes do Brasil já com o tamanho certo e vai para o CEU Jardim Paulistano, na Zona Norte de São Paulo. Lá no CEU passa por um tratamento e depois começa a montagem parte por parte. O Flávio começou o treinamento dos mecânicos que vão montar essas bicicletas, e está todos os dias com o pessoal que está cuidando disso.

BPC – As partes que não são de bambu vêm de onde?
DG – Mercado. O câmbio interno vai ser Nexus, de três marchas, o que já reduz muita coisa e será contrapedal. Só precisa ensinar as crianças a usar porque elas não estão acostumadas. Nós também compramos guidão, buzina etc.

BPC – Como as crianças vão participar do processo de montagem das bicicletas?
DG - As crianças vão de ônibus visitar o Jardim Paulistano para ver a montagem das bicicletas de bambu, para entenderem como elas são feitas. Se der vamos visitar algum dos centros produtores de bambu para que quando a bicicleta chegar à mão da criança, ela consiga entender todo o ciclo de produção.

BPC – Quais foram os critérios de escolha das crianças que vão participar do programa?
DG - Os critérios para participação no programa são muito objetivos. Ter prioritariamente entre 12 e 14 anos (se não tivermos 100 alunos nessa faixa, aí a gente puxa de 11 e depois de 10); morar próximo da ciclorrota indicada; e, além da vontade de participar do programa, os pais consentirem – que eu achei que fosse ser um problema e não foi.

BPC – Como foram definidas as ciclorrotas?
DG – Os CEUs já indicaram as primeiras ciclorrotas, de 2km a 3km até o CEU verificando o caminho que os alunos já fazem a pé, onde eles moram, e as rotas mais tranquilas de acordo com os critérios que a gente passou e que foram os mesmo utilizados pelo Cebrap na formulação das ciclorrotas pelo centro expandido de São Paulo – não passarão por avenidas com tráfego de ônibus ou veículos pesados. Essas 46 primeiras ciclorrotas eu mandei para a CET que vai verificar uma por uma e chancelar.

BPC – As bicicletas vão ficar com os alunos 100% do tempo, correto?
DG - Sim, se ele quiser ir para o parque com a bicicleta em um final de semana será ótimo. É um comodato até o fim do ano letivo. Que pode ser prorrogado caso ele continue no CEU. Se ele sair ou se completar o ciclo no fundamental e for para o ensino médio, a bicicleta dele é recolhida e vai para outra criança.

BPC - Os paraciclos já foram instalados nos CEUs?
DG – Do programa não. A gente instalou aquele U invertido amarelo, mas em uma quantidade bem pequena. Para 100 bicicletas em cada CEU a gente precisa de 50 paraciclos para colocar dois de cada lado. É um volume grande. A gente começou com Heliopolis como um modelo para mostrar para os outros CEUs como vai começar. A implantação em todos os outros começa hoje (16) com os 20 primeiros alunos recebendo as bicicletas em todas as unidades dos CEUs.

BPC – Quais foram os critérios para contratação dos monitores?
DG – Morar próximo dos CEUs, conhecer a comunidade e ter alguma relação com a bicicleta. São 92 monitores, dois por CEU.

BPC – Quando a turma de ciclistas estará completa?
DG - A partir de hoje, a cada mês você tem 20 novos. Então, em setembro devemos ter os 100 em cada CEU, contando que em julho é férias e não há aulas.

BPC – Pensando no pior cenário, se a criança tiver a bicicleta furtada, ela está fora do programa?
DG - Temos que minimizar a possibilidade de perda. Nós tivemos o cuidado de escolher uma bicicleta que não tivesse no mercado brasileiro. Na bicicleta vai ser pirografado o brasão da Prefeitura e a logomarca do programa. Mas sabemos que isso pode acontecer pontualmente e caso ocorra, vamos fazer um Boletim de Ocorrência. Nós vamos avaliar, e se a criança não tiver nada com o ocorrido, a gente pode dar uma nova bicicleta. A gente tem um percentual de reposição de bicicletas e peças previsto.

BPC – Além da bicicleta e do treinamento, as crianças vão ganhar mais algum item?
DG - Todos vão ter capacete, luz, espelho, buzina, colete refletor, cadeado, bagageiro com alforje para a criança colocar material e bandeirinha para sinalizar que a bicicleta é do programa. É importante dizer que os paraciclos do programa são feitos de PET e bambu – um modelo lindo e que otimiza o espaço – e os coletes e bandeiras são feitos de PET.

Foto: Divulgação SME

BPC – Pensando no aspecto climático. Se chover, os monitores irão pegar as crianças mesmo assim?
DG - As crianças moram próximas ao CEU e podem ir andando se quiserem. Se estiver chovendo forte, ela vai como ela iria antes. Os monitores passarão nas casas todos os dias, faça chuva ou faça sol.

BPC – E o bambu aguenta água? Ele é tratado contra o que?
DG - Sim, ele é tratado contra cupim, pragas, água etc. E se der problema, o fornecedor tem que trocar na hora.

BPC – As bicicletas possuem diferentes tamanhos?
DG – O quadro não, mas muda o aro. A gente fez uma conta de 75% de aro 26 e 25% de aro 20. Aro 20 pouquíssimos querem, é mais para quem tem 11 anos ou menos. Até porque as crianças sempre querem bicicletas maiores que eles.

BPC – Quando as bicicletas precisarem de manutenção, como será feito?
DG - Há ferramentas e material básico nos CEUs para isso. Tem equipes de mecânicos que irão circular nos CEUs a cada 15 dias para fazer trabalho de prevenção. Tudo isso para deixar que a mecânica fina fique com os monitores e alunos e a mais grossa os mecânicos cuidam.

BPC – Se algum pneu das bicicletas furar durante o trajeto, como será feito?
DG – Para, arruma e depois continua. A ideia é uma criança ajudar a outra e ter um clima colaborativo. Ninguém fica para trás.

BPC – Quanto custou a bicicleta de bambu montada com todas as peças, pronta para uso?
DG - R$ 550,00 com tudo, incluindo os acessórios. É uma bicicleta de qualidade por um preço justo.

BPC – O programa permanece para os próximos anos?
DG - Sim, permanece. Imaginando que no final do ano nós teremos alunos que irão para o ensino fundamental e vão para uma escola estadual, as bicicletas permanecem e serão passadas para novos alunos, que passarão por todo aquele processo de treinamento.  Se tivermos mais recursos ou entrada de patrocinador a gente consegue ampliar: fabricar novas bicicletas, aumentar o número de monitores, ampliar para outras escolas que não o CEU. Até o final do ano nossa missão é consolidar esses 4600 alunos iniciais.

Bicicleta de bambu em Heliópolis / Foto: Daniel Guth

 



Quem escreve

Enzo Bertolini

Jornalista apaixonado por pedalar, adepto da bike como meio de transporte e corinthiano por natureza. Sonho com uma São Paulo mais habitável, mais ciclável, voltada para pessoas e não para carros.


Comentários

  1. [...] para os motoristas e, por consequência, sua segurança. Um exemplo recente de bike bus é o programa Escolas de Bicicletas, da Secretaria Municipal de Educação, que organiza diversos bike bus para estudantes dos CEUs. No [...]

    Pingback by Blog – Webbikers » Grupo de bike bus na zona oeste de SP — 2 de agosto de 2012 @ 12:54