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“Eu sou muito mais feliz e em paz do que eu era e me sinto mais livre”
Willian Cruz poderia passar despercebido por qualquer pessoa na rua. Ou melhor, qualquer pessoa não, porque ciclistas de todos os cantos da cidade conhecem e reconhecem um dos rostos que tem batalhado pelo respeito ao ciclista nas vias de São Paulo.
Referência para toda uma comunidade ciclística, Willian, assim como muitos de nós, começou a pedalar graças ao trânsito de São Paulo. E quem ganhou com isso, além dele próprio, foi o movimento de ciclistas urbanos. Graças aos posts no Vá de Bike, muitos neófitos ciclísticos se sentiram mais seguros ao pedalar nas ruas e o debate alcançou um novo nível.
Nesta entrevista ao Bike Pedal e Cia, Willian Cruz conta um pouco do seu relacionamento com a bicicleta, o impacto na sua vida e faz uma avaliação sincera e criteriosa sobre a realidade paulistana do uso da bicicleta como meio de transporte.
“O que não me mata, me fortalece”. A máxima publicada pelo filósofo alemão Friedrich Nietzsche pode ser aplicada à comunidade ciclística de São Paulo, que luta dia a dia por ruas mais amigáveis e por uma cidade para pessoas e não para automóveis. Espero que ao final deste animado, e longo bate-papo, você possa se sentir mais forte.
Bike Pedal e Cia – Como começou seu relacionamento com a bicicleta?
Willian Cruz – Eu andava de bicicleta quando era criança e adolescente. Eu tinha uma Caloi 10 e às vezes eu ia para a escola pedalando. Quando eu fiz 18 anos eu ganhei um carro, como qualquer jovem de classe média. Hoje, 18 anos é a idade da carteira de habilitação, não mais a maioridade ou a idade que você pode entrar em um motel. O carro se transformou em um rito de passagem para a vida adulta e comigo foi assim. Eu trabalhava, fazia faculdade e me tornei totalmente sedentário. Se eu tivesse que ir a padaria, eu pegava o carro. Eu viciei tanto, que eu costumava dizer que o carro era uma extensão do meu corpo.
Eu voltei a andar de bicicleta com a ajuda de um amigo que trabalhava comigo e fazia trilha e passeios de final de semana. Ele falou que me acompanharia e se tornou o meu Bike Anjo. Isso foi no final de 2000. Quando a gente começou, eu não tinha preparo físico nenhum. Eu não era gordo, mas pesava uns 10 quilos a mais do que hoje e minha capacidade respiratória era zero. Eu lembro que a primeira vez que eu subi a avenida Angélica, eu parei quatro vezes para descansar e tomar água.
É incrível como o corpo da gente se acostuma muito rápido a andar de bicicleta. Quando eu comprei um odômetro para medir o quanto eu andava, eu comecei com cinco quilômetros, depois passei para sete e quando eu cheguei nos 15km eu já me achava o super homem. Depois eu comecei a fazer muito passeio noturno e trilha e a bicicleta se tornou uma maneira de praticar esporte. Aliás, muita gente acha que o pessoal que faz passeio de bicicleta noturno nunca vai usar a bike como meio de transporte. Eu sou um desses casos que migrou. Mas levou três anos para eu me tocar que bicicleta não era só um brinquedo e que eu podia usá-la para chegar aos lugares.
BPC – Como foi esse processo?
WC - Isso aconteceu porque eu ficava muito irritado com os congestionamentos ao ponto de eu ir atrás de quem me fechava no trânsito. Eu me lembro de um dia em um congestionamento que o farol abriu e fechou três vezes e eu não saí do lugar, não andei nem um metro. Eu fiquei tão irritado que comecei a dar socos no volante e a gritar. Depois disso, eu percebi que aquilo estava me fazendo mal, mudando minha personalidade e me fazia chegar ao trabalho todos os dias azedo, com raiva. Eu era um cara constantemente mal humorado e qualquer coisa me deixava nervoso.
Um dia meu carro quebrou. Fui até o mecânico que me disse que meu carro levaria alguns dias para ficar pronto. “Como eu ia fazer para ir para o trabalho?”, pensei. Eram apenas oito quilômetros até lá. Se eu fosse de ônibus, teria que pegar duas linhas, porque não tinha nenhuma direta. Se eu fosse de táxi gastaria muito dinheiro por causa do trânsito no caminho. Eu falei: “pô, eu tenho uma bicicleta, vou usá-la para ir para o trabalho”. E a primeira vez ainda era um péssimo dia para ir porque estava garoando e frio. Mesmo assim eu fui. Coloquei uma bermuda e uma camiseta, a roupa para trabalhar em uma mochila e fui. Cheguei ao trabalho com as costas toda suja porque eu ainda não tinha paralama na bike, mas super feliz por ter conseguido e ainda ter feito a distância de um jeito mais rápido do que eu esperava e mais rápido até do que de carro. E eu não cheguei cansado, nem muito suado e isso foi o máximo para mim. Eu percebi que era muito mais fácil do que eu imaginava.
Outro exemplo de como eu precisava urgente de uma mudança. Eu morava na Pompeia e trabalhava no Itaim. Como eu disse, eram apenas oito quilômetros. Se você faz esse trajeto a pé leva uma hora e meia, sem muito esforço. Eu levei duas horas de carro! Era um dia que estava chovendo e ainda estavam construindo o túnel da avenida Rebouças. Poxa, eu prefiro chegar em meia hora molhado e ter uma hora e meia para me secar do que levar duas horas para chegar seco. É incoerente para mim. Eu fiquei muito irritado.
Quando você está dirigindo, você pensa que a culpa é só dos outros, que você não ocupa espaço e não congestiona também. Parece que os outros estão te atrapalhando para você chegar. E você não pode fazer nada para melhorar sua situação. Se eu quisesse deixar o carro e ir a pé eu não poderia pois possivelmente eu não teria onde estacionar. Eu me sentia preso dentro do carro.
Apesar de usar a bicicleta como lazer, eu não a via como meio de transporte, eu tinha preconceito. Eu comecei a ir uma vez por semana e sempre deixava uma roupa a mais no escritório para me trocar. Depois fui com mais frequência e em pouco tempo eu já estava indo todos os dias. Isso foi em 2003, quando comecei, de fato, a usar a bicicleta como meio de transporte. O Vá de Bike nasceu graças ao trânsito de São Paulo.
BPC – E quando você abandonou de vez o carro?
WC - Em 2004 eu ainda tinha carro e usava-o ocasionalmente nos finais de semana. Em 2005 eu passei o ano inteiro em Florianópolis e não precisava de carro lá porque eu morava em hotel que ficava a duas quadras do meu trabalho. Eu voltava para São Paulo só nos finais de semana e ainda sim não em todos. Ou seja, eu não usava o carro mesmo. Minha ex-esposa precisava ligar o carro para não estragar a bateria. Eu levei a bike para Florianópolis e fazia muita trilha a noite com o pessoal mais novo que fazia faculdade na cidade.
Quando eu voltei para São Paulo eu fiz as contas de quanto eu gastava com carro e vi que era muita coisa, seguro, IPVA, manutenção etc, e carro se você não cuidar estraga. Algumas matérias já foram feitas sobre o assunto e uma delas dizia que mesmo carro popular te dá mais R$ 10 mil por ano de despesa, sem contar a depreciação. Eu pensei: “se o carro me dá R$ 1 mil por mês de despesa, eu vou vender o carro e ficar andando de táxi”.
O dia da venda do meu carro foi muito significativo porque eu fui à mesma concessionária onde eu tinha comprado o carro zero quatro anos atrás. Eu deitei o banco de trás, coloquei minha bicicleta dentro e quando cheguei lá, eles me pagaram a metade do preço que eu havia pago, sem correção. Eu então montei na bicicleta com o cheque no bolso e fui para casa pedalando.
Depois disso, eu redescobri o transporte público. Se eu ia para algum lugar que não dava para ir de ônibus ou metrô, eu chegava o mais próximo possível e pegava um táxi. São Paulo, infelizmente, te obriga a depender de carro se você quer ir para algum lugar de madrugada. Se você for a um restaurante e sair depois da meia-noite, você não tem transporte para voltar para casa. E muitas vezes você fica refém do taxista que quer te cobrar um valor fechado e alto, o suficiente para alugar um carro.
Aliás, nós decidimos morar perto do metrô por causa disso. Eu prefiro pagar um pouco mais de aluguel e morar perto do metrô do que gastar muito mais com um carro e morar longe gastando menos de moradia. Se eu preciso viajar, eu alugo um carro. Se eu vou voltar tarde de algum lugar com a minha esposa, que não pedala tanto, e agora menos ainda porque ela está grávida, a gente utiliza transporte público ou um táxi.
Um fato engraçado é que as pessoas não percebem é que o porquê as pessoas passam a utilizar a bicicleta como meio de transporte. Eu não comecei a andar de bike por um motivo altruísta, por pensar na cidade ou para salvar o planeta, mas sim por um motivo egoísta, eu queria resolver o meu problema de locomoção. A bicicleta resolveu o meu problema de mobilidade. Depois eu fui perceber todos os benefícios que a bicicleta me trazia. Primeiro benefícios físicos e de saúde, depois humor (eu sou totalmente diferente do que eu era 12 anos atrás), depois o meio ambiente e por último para a cidade. São Paulo pode melhorar se for uma cidade que valoriza as pessoas, estando elas de carro, a pé, de bicicleta ou numa cadeira de rodas.
BPC – E como começou o Vá de Bike?
WC - Eu comecei o site em 2002. Mas no começo ele não era sobre bicicleta, era um blog pessoal. Conforme eu usava a bicicleta com mais frequência, eu via o que funcionava e o que não funcionava, como por exemplo, ocupar a faixa. No começo, eu andava em cima da sarjeta e com os constantes buracos sempre tinha que desviar e sempre levava finas. Um dia eu experimentei andar no meio da faixa e a mudança foi grande, pois agora os carros tinham que mudar de faixa para me ultrapassar. Conforme eu percebia essas coisas, eu escrevia alguns textos para por no site.
O primeiro texto que eu postei, que tem a ver com bicicleta, é do final de 2003, começo de 2004. Eu não lembro o que tratava o primeiro texto, mas o segundo marcou porque eu falei sobre o que o Código de Trânsito Brasileiro (CTB). Eu me sentia um intruso na rua porque eu não era aceito como parte do tráfego. Em busca de uma maneira mais segura de andar na rua eu fui buscar informação na lei. O código não diz muita coisa, mas diz que devemos prezar pela segurança uns dos outros e que o maior deve cuidar do menor, que você tem que andar na mão dos carros, que o motorista precisa reduzir a velocidade para ultrapassar etc. Eu vi que a lei protegia o ciclista e ninguém estava se importando. Aquilo me deixou revoltado. Eu fiz uma compilação do CTB e coloquei lá no site.
A maneira que eu encontrei de externar isso foi no blog. Eu lembro que o segundo bom post que eu fiz foi sobre as recomendações de como andar na rua. Eu tenho quase certeza que esse é o post mais acessado do site até hoje e ele foi escrito em 2004.
Eu costumo dizer que todo mundo que começa a usar a bicicleta para esse fim, se torna um cicloativista em maior ou menor grau. A gente se revolta muito com a maneira que é tratado na rua, com o descaso público e a maneira como algumas pessoas colocam a gente em risco. Apesar de a lei proteger o ciclista, as pessoas estão cagando para a lei e querem que você saia da frente para elas passarem. Essas coisas vão revoltando e a gente quer mostrar para os outros que as pessoas se comportam de maneira errada no trânsito.
BPC – Nenhuma legislação mudou ou surgiu desde então…
WC – Exato e também não surgiu nenhuma grande novidade sobre o comportamento que o ciclista deve ter no trânsito. Depois do post sobre o CTB, eu fiz outro sobre não andar na contramão. É um tema que causa muita polêmica até hoje. Muita gente foi ensinada que é melhor andar na contramão porque você vê o carro vindo. Só que não adianta você ver o carro vindo se ele não desviar de você com segurança.
Além das recomendações iniciais, o blog serviu como um desabafo para mim e para as pessoas que liam e se indignavam com o tratamento recebido no trânsito ou em alguns lugares por chegar de bicicleta. Hoje eu pego um pouco mais leve com os desabafos e dou um tom mais profissional aos posts, como, por exemplo, a reclamação dos ciclistas que se sentiam discriminados no Shopping Bourbon. Por uma semana eu tentei contato com a assessoria de imprensa do estabelecimento para ouvir o lado deles e só no final, quando eu disse que iria publicar o texto deles, é que eles responderam com uma frase dizendo que respeitavam os ciclistas. Mesmo com a mídia tradicional, eu acho que alguns estabelecimentos não estão preocupados em responder por que eles vão continuar a ganhar o dinheiro de qualquer jeito.
BPC – O que mudou nos últimos doze anos em São Paulo e em você?
WC – Eu nunca fui uma pessoa com problemas de saúde, mas eu era sedentário, ficava ofegante de subir escadas (mesmo não fumando) e pesava uns 80 kgs (hoje eu peso 72kgs). Logo que eu comecei a andar de bicicleta duas vezes por semana eu perdi 4 kgs só no primeiro mês e melhorei muito minha capacidade cardiorrespiratória. Também melhorei minha disposição e o meu humor, principalmente. Eu sou muito mais feliz e em paz do que eu era e me sinto mais livre. Eu sentia medo de ser assaltado de carro e acho mais difícil que me roubem a bicicleta. Eu tinha muito medo, eu não via a cidade e não vivia a cidade.
De bicicleta a tua interação com a cidade é muito maior. Eu me tornei mais cidadão e percebi que a cidade é de todo mundo e não do governo. Antes as ruas eram apenas um lugar que eu precisava passar para chegar onde eu queria. Hoje em dia não, é uma extensão da minha casa, passou a ser o lugar onde eu vivo, eu sinto a cidade. É muito diferente.
Na cidade eu percebo uma melhora muito grande no respeito ao ciclista na rua, principalmente de um ano para cá. Por causa de algumas coisas que aconteceram esse ano, a bicicleta começou a ganhar uma projeção cada vez maior na mídia conforme os problemas de congestionamento e de poluição aumentam. As pessoas passaram a aceitar a bicicleta como uma opção. Não precisa todo mundo pedalar, mas precisa haver o respeito pelas pessoas que optam por esse meio.
Eu não quero que todo mundo ande de bicicleta, não são todos que podem, seja por problemas de saúde ou restrição de mobilidade, entre tantos outros. O carro tem suas utilidades, se a pessoa quer continuar usando o carro, tudo bem, continue, mas respeita o meu direito de usar a bicicleta e não passe em cima de mim, por favor. Respeite a minha opção.
A própria ciclofaixa, há pessoas não aceitam muito, mas querendo ou não, atrai de 50 mil a 80 mil pessoas por semana para pedalar na rua. A maioria dos que pedalam ali é motorista durante a semana e muitas vezes vão sair da ciclofaixa e andar um pouco na rua e quando usar o carro vai se lembrar de como é ser ciclista.
O que ajudou de fato a melhorar foi o aumento da quantidade de ciclistas na rua. Quem só dirige não percebe o ciclista na rua. E quanto mais gente andando de bicicleta na rua, mas seguro fica para os ciclistas por dois motivos: o ciclista se torna mais visível e é maior a chance de um motorista ter um parente ou um amigo que pedala. E isso vai influenciar o comportamento dele com o carro.
BPC – Como você interpreta o espaço que a mídia dá para a bicicleta atualmente?
WC - A mídia mudou muito sua visão sobre a bicicleta. Até uns anos atrás era assim: “Esses caras são malucos em andar na rua e estão atrapalhando o trânsito. São todos suicidas”. As matérias mostravam a bicicleta ocupando o lugar do carro e poucas mostravam a situação de outra maneira. Só que não tem lugar do carro, a cidade é das pessoas, algumas estão dentro dos carros e outras não. Hoje em dia isso mudou muito. Justamente porque as pessoas vão ficando cada vez mais inconformadas com esse trânsito pornográfico que a gente tem. A poluição ainda é pior, porque o efeito no nosso organismo só é percebido anos depois. Muita gente morre todos os dias por doenças respiratórias ou problemas cardiovasculares e que não é corretamente relacionada à poluição.
As pessoas passaram a se perguntar o que podia ser feito para mudar esse problema do trânsito e a bicicleta passou a ser reconhecida como opção. Eu sei que não existe uma solução, mas sim várias soluções e o transporte de massa é a principal. Só que a bicicleta é uma opção e se a pessoa quer usar a bicicleta ela tem esse direito. Se vai resolver o problema da cidade ou não é uma outra discussão. Mas ela passou a ser vista como uma parte da solução do problema do trânsito.
Além dos congestionamentos, o cicloativismo começou a ter uma postura reativa, depois de apanhar tanto. Quando alguém falava algo, mesmo que tivesse oito coisas certas e duas erradas, o pessoal reagia com força porque estava cansado de apanhar e algumas pessoas ainda são assim hoje.
As pessoas em geral enxergavam o usuário de bicicleta como cidadão de segunda classe, sem conhecimento, um suicida que estava querendo levar outros para morrerem também. Essa visão mudou, possivelmente por causa de mostrarmos a bicicleta como um objeto sedutor, as matérias começarem a mostrar as vantagens de se usar a bicicleta e não só as desvantagens de se usar o carro. E isso gerava uma posição reativa do motorista.
O Mikael Colville-Andersen, do Copenhagenize, fala que o uso da bicicleta tem que atrair, seduzir as pessoas. E é isso mesmo. Então a gente começou a fazer isso. Usar a bicicleta tem efeito positivo para mim, para a cidade, é melhor do que o carro por causa de tal coisa. Isso começou a se espalhar pela imprensa e as matérias começaram a aumentar. A gente até brinca que temos alguns infiltrados nas redações. Não porque éramos uma máfia ou espiões, mas porque havia pessoas dentro de um veículo de comunicação que conseguiam entender nosso pensamento. E esses repórteres passaram a escrever matérias condizentes com o que a gente considera realidade. A nossa visão passou a ser compreendida e passou a ser veiculada nos meios de comunicação.
A Globo mesmo mudou muito a postura dela. Eu lembro que eu fiz um post no Vá de Bike há alguns anos sobre uma matéria da Globo que falava de pedestres que morriam atropelados e a matéria dizia que a culpa era dos pedestres. As matérias deles hoje são diferentes, pois valorizam o pedestre, o ciclista, a vida e reclamam do motorista que faz a coisa errada. É uma postura mais cidadã. Eu dei a Globo como exemplo, mas isso é geral em quase toda a mídia. Acho que a imprensa mudou a postura dela porque percebeu que trabalha para o cidadão, e que como ciclistas nós prestamos um serviço para a comunidade e queremos uma cidade melhor para todos. Eles passaram a seduzir a classe média formadora de opinião não apenas com entretenimento, mas também com informação.
BPC – Qual o impacto que a postura da imprensa causa na visão e no comportamento do cidadão e das autoridades?
WC – A imprensa tem uma grande influência no poder público, pois eles medem o resultado do que fazem pela imprensa. Se você passa uma informação no jornal das oito ou em uma novela você influencia milhares de pessoas que são suscetíveis e absorvem essa informação sem comparar com o que outros veículos estão falando, com o pensamento de outras pessoas e com os próprios valores.
Os cicloativistas perceberam e começaram a mostrar isso para a imprensa ao invés de malhar. O jornalista que só anda de carro não sabe a realidade de quem anda de bicicleta, assim como eu não sei a realidade de um caminhoneiro porque eu nunca dirigi um caminhão. Se eu quiser escrever algo a respeito, eu vou precisar consultar um motorista de caminhão para conhecer a rotina dele. A imprensa conseguiu fazer isso com os cicloativistas, que têm um conhecimento mais amplo do assunto.
A sociedade é muito diversa e as pessoas precisam entender a realidade dos outros. O motorista precisa entender como é a circulação do ciclista para que ele não coloque a gente em risco. Tem muito motorista que coloca o ciclista em risco sem querer por não entender que a dinâmica entre carros é diferente da dinâmica entre bicicletas.
BPC – Como você avalia a ação dos nossos governantes para a causa ciclística?
WC – Eles têm percebido que o movimento e a quantidade de pessoas que pedalam tem aumentado e isso pode causar um estrago político para eles. Além disso, a imprensa está apoiando os ciclistas e isso influencia o comportamento dos políticos também. Tem alguns políticos que lutam pela nossa causa, que entendem a nossa posição e conversam bastante com a gente. Mesmo aqueles que não têm tanto contato com a gente, eles começam a entender a nossa causa.
O Eduardo Jorge disse certa vez que fazer mudanças políticas é como você dirigir um transatlântico, ou seja, as mudanças são lentas. É claro que algumas coisas você pode fazer mais rápido, como por exemplo, a ciclorrota do Brooklin. Por outro lado, para você fazer uma política cicloviária ampla demora. A gente tem iniciativas isoladas e desconectadas.
BPC – Há algum político defensor da causa ciclística?
WC – Sim, mas que não atua só para a causa ciclística, mas sim por uma mudança maior em diversos assuntos, como a melhoria do centro de São Paulo. Os nomes que eu vou falar não são uma indicação de voto, até porque eu não concordo obrigatoriamente com tudo que eles fazem e não conheço toda a extensão de seus trabalhos.
O Walter Feldman é um alguém que quando estava na Secretaria de Esportes dava bastante força para a bicicleta não só como lazer, mas como transporte também (no momento está em Londres como Embaixador do Esporte à convite da Prefeitura de São Paulo e do Comitê Olímpico Brasileiro). O Eduardo Jorge, secretário municipal do Verde e Meio Ambiente, que há muitos anos dá uma força para a bicicleta como meio de transporte dentro das limitações dele na secretaria. A Soninha Francine (candidata do PPS à prefeitura de São Paulo em 2012) tem uma visão muito boa sobre o universo da bicicleta. Um vereador que a gente pode falar porque luta bastante para a causa é o Chico Macena (PT). Apesar dele não lutar apenas pela bicicleta, ele faz dela uma de suas bandeiras na Câmara Municipal de São Paulo. Apesar dele não andar de bicicleta ele tem um contato muito próximo com pessoas que andam. Também tem o José Luiz Portella Pereira, ex-secretário dos Transportes Metropolitanos do Estado de São Paulo, que tem uma visão importante da bicicleta como opção de transporte. O Sergio Avelleda, presidente do Metrô, é outra pessoa que usa a bicicleta como meio de transporte eventualmente.
Você pode observar que são pessoas de partidos totalmente diferentes, porque eu voto em ideais e não em partidos. Eu vejo se a pessoa em quem eu vou votar tem ideais os quais eu não tenho vergonha. O político tem descer do pedestal que ele se colocou e viver mais a realidade
BPC – E o secretário municipal de transportes Marcelo Branco (também presidente da CET e da SPTrans)?
WC – Ele é diferente do antecessor dele (Alexandre de Moraes), que só queria fluidez dos carros e que chegou a dizer que daria para aumentar a segurança das pessoas, mas isso impactaria na fluidez. Ou seja, ele preferia que os carros andassem rápido e as pessoas continuassem morrendo, trocando em miúdos. Quando o Marcelo Branco entrou, algumas pessoas me falaram que ele era um aliado do ciclista e que faria muito pela causa. E eu não acreditei, pelo posicionamento histórico da CET e do antecessor dele.
No dia do fórum do David Byrne (ex-vocalista do Talking Heads, cicloativista e autor do livro Diários de Bicicleta) em São Paulo ele palestrou e eu percebi que o posicionamento dele era diferente. Ele falou coisas que eu não esperava e que me surpreenderam positivamente. A ciclorrota do Brooklin me surpreendeu bastante porque eu não esperava que seria feita da maneira como foi, com o espaço das ruas sendo dividido entre carros e bicicletas.
A campanha “Dê Preferência a Vida” também é sensacional e a repercussão está sendo ótima. Ele tem feito um bom trabalho, não na velocidade que os cicloativistas gostariam, mas na velocidade em que consegue vencer resistências. Aos poucos ele tem aplicado o conceito de cidades para pessoas. Ele disse esse termo no fórum e significa muito ele ter usado-o. Eu sou muito otimista pelo trabalho que ele está fazendo e vai fazer ainda.
BPC – Saindo da esfera ativista e política e falando mais de você, quantas bicicletas você tem?
WC – Só uma e eu vou com ela para todo lado. Eu fico até preocupado quando eu tenho que deixar ela na oficina. Eu costumo avisar na bicicletaria quando eu vou deixar a bicicleta lá para que eu já pegue no dia seguinte. Eu a uso para transporte e viagem, com o lazer embutido em tudo isso.
BPC – Para onde você já viajou com a sua bike?
WC – O mais longe que eu já fui foi Ubatuba, nós saímos em grupo de umas 30 pessoas e dividimos a viagem em dois dias para que todos pudessem acompanhar. Também já pedalei em alguns lugares de Alagoas e viajei bastante por Santa Catarina. É muito bacana passar por cidades pequenas do interior dos estados e conversar com as pessoas. A bicicleta te dá essa identificação, pois você se despe dos níveis sociais e você passa a ser similar com o outro. O carro não te dá essa possibilidade, porque você quer ir apenas do ponto A para o ponto B. De bicicleta você curte a viagem. Uma cicloviagem é uma coisa que te ensina muito sobre você mesmo. É uma viagem interna.
BPC – Qual foi a tua última cicloviagem?
WC – A Rota Marcia Prado é a que eu costumo fazer. Antes dessa, eu fiz uma em Alagoas, de Maragogi à Maceió (AL).
BPC – E quando você conheceu sua esposa, ela andava de bicicleta?
WC – Não.
BPC – E hoje ela pedala?
WC – Ela anda, não tanto quanto eu. Quando a gente sai para jantar ou vamos visitar algum amigo nós vamos de bicicleta. Também saímos para ir ao Parque do Ibirapuera e andar na Ciclofaixa. *Nota: no dia do casamento dele, a Priscila (noiva) foi encontrá-lo de bicicleta e o casal, junto dos seus convidados, foram ao cartório de bicicleta.
BPC – Que mensagem final você deixa para o seu leitor?
WC – Eu poderia simplesmente dizer Vá de Bike (risos). Mas vou citar a Renata Falzoni que uma vez disse que pedalar é um direito e você tem que exercer esse direito e impor sua presença. E isso não significa quebrar retrovisores e sair xingando motoristas. É você ocupar o seu espaço e saber que aquele espaço é um direito seu.
Tags:cicloativismo, Copenhaginize, David Byrne, Mikael Colville-Andersen, mobilidade, Transporte, Vá de Bike, Willian Cruz
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