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“A bicicleta consegue trazer um pouco do que há de melhor em cada pessoa”
Ele tem sobrenome português e talvez por isso, seu desejo por desbravar terras seja algo que está no seu DNA. Arthur Simões era um estudante de direito quando percebeu que advogar não era sua praia. O que fazer?
Muitos ficariam desesperados, afinal, já haviam investido tempo e dinheiro na faculdade, não queriam decepcionar os pais ou se sentiriam muito velho para começar um novo curso. Ele já tinha a resposta dentro de si. Iria dar a volta ao mundo de bicicleta.
O relacionamento com a bike começou desde cedo e se manteve mesmo quando mudou para São Paulo. Nascido em São José dos Campos e criado em Jacareí, Arthur se mudou para a capital paulista para estudar no Mackenzie.
Em São Paulo, a bicicleta se tornou sua parceira inseparável, acompanhando-o e sendo acompanhada para todos os lugares. Ao conhecer pela internet a história de um alemão que viajou o mundo de bicicleta, se apaixonou pelo cicloturismo. Começou com viagens curtas, para cidades próximas de São Paulo e para a casa dos pais em Jacareí.
Após terminar a faculdade, Arthur caiu na estrada e viajou por três anos ininterruptos pedalando por 46 países nos cinco continentes. Passou por países como Austrália, onde o ciclista conta com infraestrutura até países da África e Oriente Médio, onde foi escoltado por policiais e militares por praticamente todo o trajeto para que não fosse sequestrado ou alvo de terrorismo.
Todos os dias, Arthur documentava suas experiências no Pedal na Estrada, site/diário que ele manteve durante a viagem e que foi fonte de informação e conteúdo para crianças e professores de escolas de todo o Brasil.
Ao retornar para o Brasil em 2009, Arthur levou mais de seis meses para desarrumar as malas. A sensação de que cairia na estrada em pouco tempo novamente e o sentimento de se sentir estranho em casa depois de tanto tempo fora permaneceram com ele. Aos poucos ele se adaptou a rotina de um cidadão comum e passou a encarar a realidade de uma vida mais enraizada.
Como parte final do ciclo de sua viagem, Arthur escreveu o livro “O mundo ao lado”, onde conta sua história pelos quatro cantos do planeta, as realidades que conheceu, as pessoas com as quais interagiu e, principalmente, porque viajar ao redor do mundo de bicicleta é uma experiência única e que te aproxima com os locais de uma maneira única. “A bicicleta te coloca em patamar igual ao de qualquer pessoa, não importa a classe social”, diz.
Na entrevista que Arthur gentilmente concedeu ao Bike Pedal e Cia alguns dias após o lançamento de seu livro, você vai conhecer um pouco mais dele e das histórias dessa trip. Mas um aviso, ao ler essa entrevista, você não resistirá e vai querer pedalar até onde seus sonhos alcançam.
Bike Pedal e Cia – Como surgiu a ideia da viagem? E como foi a preparação?
Arthur Simões – Essa pergunta me perseguiu durante muito tempo ao longo da viagem. Hoje eu já tenho uma resposta. Em um determinado ponto da faculdade de direito eu percebi que aquilo não era para mim. Eu não me via com 40 anos advogando. Eu queria fazer outra coisa, mas não sabia exatamente o que. Chega em um ponto na nossa vida, que você se pergunta, por que eu estou aqui? O que eu nasci para fazer? E você não vai achar resposta. Naquele momento eu não tinha resposta para essa pergunta. Mas eu podia fazer aquilo que eu mais gostava e tentar se aproximar de mim ao máximo. Olhando para dentro de mim eu percebi que eu queria fazer alguma coisa com a qual eu me identificasse muito. Para me dedicar a isso eu precisava assumir os meus desejos, as minhas vontades.
Fazendo uma retrospectiva na minha vida eu percebi que a bicicleta estava na minha vida desde os quatro anos de idade. Eu pedalo desde sempre. Eu sempre fiz tudo de bike desde pequeno e quando eu vim para São Paulo em 2000 para fazer direito no Mackenzie, a primeira coisa que eu trouxe foi a bicicleta. Nesse momento eu percebi que a bicicleta para mim era meio de transporte, além de ter sido esporte ao longo da minha vida. Durante a faculdade ela tomou outra conotação também, se transformou em um meio de viajar. Foi quando eu começei a fazer cicloturismo. Fiz Estrada Real, litoral paulista e visitava meus pais em Jacareí de bicicleta.
O Pedal na Estrada surgiu de uma conversa que eu tive com amigo durante a viagem da Estrada Real. Ele comentou de um alemão que tinha dado a volta ao mundo de bicicleta e isso soou fantástico para mim. Eu tinha 20 anos e me perguntava se isso era mesmo possível. Então, isso se tornou um sonho.
O Pedal na Estrada foi resultado de tudo isso, de eu me encontrar, de conhecer uma parte de mim desconhecida até então. Os projetos sociais também eram outra faceta do projeto.
A bicicleta ia trazer para mim um prazer e uma alegria diária que iria balancear a solidão de viajar sozinho pela estrada. Por outro lado os projetos sociais davam um sentido para a viagem.
BPC – Como você formulou a estutura dos projetos sociais para a viagem e como isso se aplicou?
AS – Quando eu estava planejando a viagem, pensei em como eu poderia utilizar essa experiência em prol de outros. Percebi que um projeto educacional que lidasse direto com os estudantes teria mais sucesso e seria melhor utilizado. Durante a viagem, por meios dos diários, eu relatava sobre as culturas dos países para os estudantes. Eu fiz parcerias com diversas ONGs e escolas para que os professores pudessem utilizar esse material durante as aulas. A ideia não era substituir os livros, mas mostrar um outro lado das culturas pelas quais eu iria passar. Os alunos ao estudarem o Egito poderiam entrar no meu site e ver o país atualmente, e não só a parte histórica dos livros. Eles teriam uma visão mais global desses lugares.
BPC – Você teve retorno dos estudantes e professores que acompanhavam seu diário?
AS – Por estar sempre em trânsito, eu não tinha como mensurar esse retorno, mas eu sei que muitas escolas utilizavam o site como material complementar pelos emails que eu recebia dos estudantes e professores. O retorno superou as minhas expectativas, porque eu divulguei o projeto somente para algumas escolas aqui em São Paulo, mas recebi mensagens de alunos do Nordeste, da Argentina e do Uruguai.
Além disso, professores de São Paulo me disseram que a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo recomendou aos professores meu projeto como material complementar às aulas. Isso me dava força para seguir em frente, especialmente em dias que eu estava cansado ou desanimado. Nessa hora eu sabia que era hora de acessar meus emails e recarregar a energia com as mensagens e então seguir minha viagem.
BPC – Em uma viagem de grande porte como a sua, na maioria das vezes o que foi planejado, não é executado. Como você planejou o trajeto e o que de fato foi realizado nesses três anos de estrada?
AS – Você está certo. Eu me planejei para fazer 28 países e dois anos e meio de viagem. Tanto que o patrocínio que eu consegui para o projeto foi feito em cima desse planejamento. Sö que antes mesmo de eu sair, eu já inverti a rota. Eu tinha planejado sempre seguir na direção leste, começando pela Europa e seguir sentido Ásia. Porém eu fiz o caminho inverso. Na América do Sul mesmo eu incluí países. No final eu terminei com três anos e dois meses de viagem e 46 países percorridos.
Acho que isso reflete a minha visão sobre o ato de viajar. A viajem tem que ser algo vivo, você não pode se restringir ao projeto inicial, porque afinal, por mais que você tenha planejado, ele é inocente. Você não sabe exatamente o que vai acontecer. Uma viagem de três anos deixa de ser uma viagem e passa a ser um pedaço da sua vida. Quando eu retornei, ela representava 15% da minha vida. A viagem é algo vivo, assim como sua vida. E por ser uma vida resumida, a viagem é muito intensa. Apesar de imaginar o dia de amanhã, você nunca tem certeza do que vai ser. A beleza da viagem é deixar ela acontecer. Um exemplo disso é quando eu estava no Irã. Começou a nevar e isso me impediu de ir até a Turquia, que era meu próximo passo. Eu precisei inverter completamente e ir para o sul, passando por Emirados Árabes Unidos, Omã e Iêmen, onde o inverno era o único período possível de pedalar por causa do calor intenso. E eram países que até aquele momento eu não sabia que iria visitar.
Quando você sai de casa você acha que vai fazer a viagem, mas depois de um tempo descobre que é a viagem é que está te fazendo. E em alguns momentos a viagem também está te desfazendo, pois você passa a mudar conceitos e a sua visão sobre determinados lugares. A viagem está te descontruindo e te tornando uma outra pessoa. Você se reinventa a cada dia. Esse é um processo muito interessante. Perceber isso durante a viagem é perceber a magia de estar cada hora em um lugar. Eu não tinha compromissos jornalísticos nos locais onde eu estava, nem amarras políticas, o que me permitiu quebrar alguns esteriótipos. Um deles é achar que visitar o Paquistão seria problemático, quando na verdade foi um lugar super hospitaleiro, assim como o Irã, país onde eu fui melhor recebido.
BPC – Quais foram os lugares que te surpreenderam de maneira positiva e negativa?
AS – O Irã e o Paquistão me surpreenderam para o bem, muito positivamente. Eu achei que ia encontrar esses lugares em guerra e, de certa forma, com xenofobia de estrangeiro. Ao contrário, eu fui recebido na casa das pessoas e elas choravam para se despedir de mim. No Mianmar e Iêmen a hospitalidade foi gigantesca. São países que eu não conhecia, mas onde eu encontrei pessoas que não vi igual em outra parte do mundo.
Pelo lado negativo foram a Índia e Indonésia, especificamente a ilha de Java. São países que quando a gente escuta falar, as pessoas sempre se concentram na beleza deles, na geografia e praias maravilhosas da Indonésia ou na cultura exótica da Índia. Ocorre que na minha viagem, eu não ficava restrito aos pontos turísticos, pelo contrário, quase nunca eu passava em lugares assim. Eu estava restrito aos meus 100 quilômetros diários de vilarejo em vilarejo. Era uma viagem diferente, com uma pegada cultural muito mais próxima, até porque muitas vezes eu ficava na casa das pessoas. E nessas culturas eu sofri muito. As vezes pela falta de higiene, o que me fazia passar mal pela comida ou pela densidade demográfica. Como tinha muita gente e o trânsito era caótico, guiar uma bicicleta por esses países era uma missão quase suicida (risos). Todo dia eu acordava pela manhã e falava: vou pra guerra. Na Índia eu era um pedaço de dólar amabulante, as pessoas já chegavam em mim querendo dinheiro. Já na África eu senti um certo racismo com o homem branco. Muitos olhavam para mim, gritavam farangi e vinham atacar pedra em mim.
BPC – O seu orçamento era limitado, como todo viajante de bicicleta. Com relação a hospedagem e alimentação, como você se virava?
AS – Pelo aspecto cultural da viagem, um dos grandes objetivos era ficar na casa das pessoas e comer com elas para viver o dia de um iraniano, de um cambojano etc. Claro que nem sempre isso foi possível. Eu tinha comigo barraca e saco de dormir para que eu pudesse acampar sempre que precisasse, especilamente em locais ermos, como o deserto do Atacama, no Chile, ou do Saara, no Sudão. Também fiquei em muito albergue de beira de estrada.
Sobre a comida, eu comia o que tinha (risos). Eu era vegetariano quando saí do Brasil. No meu segundo mês de viagem, na Argentina, eu deixei de ser. Por quê? Porquê você tem que se alimentar bem e bastante, pois você está numa rotina de gasto energético muito grande. Pedalar 100kms por dia queima muita caloria. Então eu tinha um apetite de leão, o que visse pela frente eu comia. Se você quer se manter em uma dieta restrita você corre o risco de comer muito mais porcaria. Tirar a carne é muito arriscado. Se você tem condições de sustentar uma dieta específica, ok. Senão você tem que ir atrás do que tem. Eu me hospedava na casa das pessoas e elas se sentiam honradas em ter um brasileiro viajando de bicicleta pelo mundo. E quase sempre faziam um prato especial que levava carne. Eu não podia recusar. Outra coisa é que você conhece muito da cultura por meio da comida também. E quando você viaja, você come o que tem. Eu cheguei a comer cachorro, camelo, cavalo e canguru. Muitas vezes eu não tinha vontade de comer o que me ofereciam, como a sopa de cabeça de pato na Tailândia, mas era o que tinha, e eu comi. A comida era o meu combustível. O problema, é que algumas vezes esse combustível estava adulterado (risos) e eu passava mal. Em alguns países onde a higiene era mais baixa eu sofria muito com isso.
Depois de três anos de viagem, meu corpo não queria nenhuma comida diferente, só o tradicional arroz com feijão mesmo (risos).
BPC – Como você conseguia as hospedagens nas casas dos locais?
AS – Quando eu chegava em uma cidade nova e esperava ser convidado, dificilmente acontecia. Geralmente, quando eu chegava com menos pretensões a um local novo era quando o convite acontecia. Se eu chegasse de mal humor, dificilmente seria convidado. Seu estava sorrindo, tranquilo, o convite vinha. A bicicleta tem o grande poder de atrair as pessoas de uma forma boa. Para mim não existe pessoa boa ou ruim, todo mundo tem os dois lados e vai de você trazer a tona o melhor da pessoa. E a bicicleta consegue trazer um pouco do que há de melhor em cada pessoa. Se você conseguir trabalhar isso, você pode se dar muito bem. A pessoas não estão acostumadas a ver um viajante de bike, isso é incomum, especialmente ciclistas vindos do Brasil.
E aí, era hora de usar uma tática, que era pedir o mínimo. Se eu pedisse uma hospedagem para aquela pessoa, dificilmente ela iria me dar. Mas se eu pedisse um copo d’água, eles quase sempre perguntavam se eu tinha onde ficar ou o que comer. É claro que nem todos os lugares as pessoas eram tão abertas e eu tinha que me virar como dava. Mas essa tática da água quase sempre funcionava.
BPC – Quais foram os países que você mais foi hospedado?
AS – No Brasil, acho que por falar a língua. No primeiro mês eu só fiquei um dia sem ser hospedado pelas pessoas. E eu não as conhecia. Na América do Sul, Malásia e Austrália também. Na Argentina, por exemplo, foi o contrário. As pessoas eram super simpáticas, me ajudavam, mas não tinha essa abertura da casa. Isso vai de cultura para cultura. O brasileiro não se importa em hospedar pessoas. O muçulmano também. É até uma questão religiosa ajudar o viajante.
Na Europa, eu contatei algumas pessoas que eu tinha conhecido durante a viagem e fui ficando na casa deles e eles me indicavam para amigos em outras cidades.
Já em países onde havia ditadura, as pessoas eram proibidas de receber estrangeiros em suas casas, como em Mianmar. Eu não podia nem acampar, porque sempre chegava um policial para me abordar. Então eu tinha que ficar em hotel. Na Índia também era difícil ficar hospedado porque a aglomeração nas casas era muito grande e era muito cansativo, então eu preferia fica em um hotel mais simples. E tinha outros países que a polícia não me deixava ficar na casa das pessoas, nem acampar, como zonas de risco no Paquistão e no Iêmen, onde eu era sempre escoltado pela polícia local porque era um grande risco eu ficar nesse tipo de situação. Ou eu era obrigado a fica na delegacia ou em algum hotel de beira de estrada que eles me colocavam.
BPC – Em um dos relatos do site, você diz que em alguns países era sempre escoltado e nunca ficava sozinho durante o trajeto no país. Onde isso ocorreu? Em algum momento você se sentiu em risco?
AS – Foram apenas quatro lugares. Começou no Paquistão. Até então eu tinha passado por países que tinham restrições de viagem, mas eu não precisava se escoltado. No Irã e no Iêmen também fui escoltado. E o Egito, que era um local que eu não esperava, também fui acompanhado.
Eu não queria ser escoltado. Eu sempre estava junto da população local, porque era a melhor maneira de conhecer a cultura, e eles me contavam do risco de estar ali. Alguém me via na estrada, entrava em contato com a polícia local, que me parava na estrada e eu era obrigado a ir de delegacia em delegacia. Quando eu encontrava policiais de bom humor, eles me deixavam pedalar e iam de moto e metralhadora atrás. Quando o policial estava sem tempo, eles colocavam a minha bicicleta na caminhonete e me levavam até o posto policial mais perto. Isso aconteceu muito no Paquistão, onde eles me restringiram demais. No Irã aconteceu na fronteira com o Paquistão e o Afeganistão, porque eles disseram que era uma zona de muito risco. Eles me levaram 300 km adentro da fronteira e depois me deixaram pedalar.
No Iêmen, o exército me acompanhou, mas me deixou pedalar. Já no Egito era complicado, pois até quem estava de carro era escoltado. Qualquer estrangeiro, não importava o tipo de veículo, entrava num comboio e era escoltado. Como de bicicleta eu não tinha como acompanhar a velocidade, eu era colocado em um carro de polícia, ônibus ou trem. Em um trecho no Egito eu consegui burlar a polícia e pude perceber o espanto da população em ver um estrangeiro, já que essas pessoas sabiam que estranhos não eram permitidos ali. Infelizmente, eu fui encontrado logo (risos).
Apesar de eu não sentir risco, o motivo das restrições era sempre o mesmo: terrorismo.
BPC – Como você fazia para se comunicar com a população local?
AS – Eu deixei o Brasil falando inglês e portunhol, que logo virou espanhol na América do Sul. Depois aprendi um pouco de francês por conta da África. Mas a língua universal mesmo é o inglês, junto com a mímica. Todo mundo sabe um pouquinho de inglês. O mundo inteiro sabe o que significa thank you ou please, e tem noções básicas de inglês. Eu também sempre tentava aprender um pouco da língua local, palavras básicas como bom dia, por favor e obrigado.
BPC – Que equipamentos você levou na sua viagem? Como você se planejou com isso? Você mudou muita coisa ao longo do trajeto?
AS – A mudança foi mínima, foi mais sazonal, de acordo com as estações. As vezes eu levava mais comida, ou tinha mais roupas de frio. Eu tinha quase 30kgs comigo que se mantiveram durante a viagem. Eu levei computador, saco de dormir, barraca, isolante térmico, fogareiro, panela, talher, ferramentas, peças pequenas de reposição para a bicicleta, produtos de higiene, remédios, câmera, gps, mapa, MP3, carregadores etc. Apesar de ter bastante coisa, eu tentava não levar nada pesado comigo, todos os equipamentos eram leves e compactos.
Nesse período eu consegui conservar tudo que eu levei e os equipamentos com os quais eu saí retornaram comigo.
BPC – Que bicicleta você usou para pedalar?
AS – Eu fui patrocinado pela Fuji e usei uma MTB deles, com algumas modificações. Foi uma escolha boa por causa da resistência dela. A suspensão dianteira que eu instalei também me ajudou bastante. Embora meu gasto físico fosse maior em algumas subidas por causa disso, a suspensão me salvou muitas vezes porque eu peguei muito buraco.
BPC – Você teve algum problema mecânico mais sério no trajeto, além dos corriqueiros?
AS – O bagageiro chegou a quebrar algumas vezes. Eu usei 15 pneus, cinco rodas que racharam por causa do freio V-brake que eu usava, raios eu não tenho ideia. Câmaras eu também perdi a conta. Foram seis ou sete correntes trocadas, inúmeras pastilhas de freio.
Quando minha gancheira quebrou eu tive que esperar na Índia o pessoal me mandar porque eu não tinha uma sobresalente e não achava uma em Calcutá. Na Argentina eu fiquei sem câmbio. O movimento central começou a me dar problemas também e eu tive que trocar.
Na Turquia eu fui atropelado por um caminhão e a bicicleta ficou bem danificada e eu precisei trocar um monte de coisas. A roda quebrou em seis pedaços. Eu precisei ir de ônibus pra Istambul com a bike quebrada para arrumar tudo.
BPC – Conta mais sobre seu acidente na Turquia
AS – Foi super banal. Eu estava no acostamento em um dos poucos trechos planos da Turquia. Eu tinha me dado ao luxo de ouvir música, coisa que eu só fazia quando tinha acostamento e era seguro. O caminhoneiro se distraiu, entrou no acostamento e me pegou. Nesse trecho eu estava acompanhado de um amigo que me pedalou comigo por dois meses. A bicicleta dele não foi tão danificada porque que eu estava atrás. Era um dia de vento contra e a gente estava se revezando na frente para quebrar o vento. Foi um acidente bem complicado.
Outro acidente que eu tive, foi em Dubai (Emirados Árabes Unidos), mas sem a bicicleta. Eu já estava viajando a quase dois anos, meu passaporte estava cheio e eu precisei ir para Abu Dabi renovar o documento na embaixada. No retorno, teve a maior chuva dos últimos 15 anos da região. Como lá é deserto e nunca chove, o pessoal não sabe muito como dirigir na chuva e o ônibus capotou.
Graças a Deus eu não quebrei nada em nenhuma das situações. Foi só arrumar as coisas que estavam danificadas e seguir viagem.
BPC – Como você lidava com os pedidos de visto?
AS – O Brasil possui muitos acordos internacionais e brasileiro não precisa de tanto visto. Em muitos lugares também você pode tirar o visto na fronteira. Os países que eu precisava de visto, eu fazia uma logística no país anterior para fazer o pedido. Dependendo do país eu fazia o pedido com mais antecedência, como Irã e Paquistão, que tinham muita burocracia. Nenhum país me negou visto.
BPC – Quando chegou o momento que você decidiu voltar para casa?
AS – Foi de forma natural. Eu até tentei negociar com o patrocinador e viajar um pouco mais, mas por conta da crise financeira de 2008 eu não consegui renovar o contrato. A ideia era seguir até a América do Norte e de lá descer pela América Central até São Paulo. Além disso, eu peguei outono e inverno na Europa, então enfrentei muito frio e dias mais curtos e nessa época dificilmente você consegue acampar. Por fim, o meu corpo também estava cansado e a saudade da família apertava cada vez mais. Sabia que estava na hora de voltar. Eu já tinha feito muito mais do que tinha planejado.
O retorno é difícil. Do mesmo jeito que quando você sai, você tem que se adaptar a uma vida nova, quando você retorna, você tem que se adaptar de novo. Eu levava uma vida nômade e precisava me adaptar a uma rotina novamente. Para passar por esse processo de uma maneira mais fácil eu não voltei para a profissão que eu me formei. Hoje eu sou fotógrafo e escrevo para revistas de viagem.
BPC – Já está adaptado?
AS – Já sim, mas com uma vontade de sair de novo.
BPC – Para quem tem o desejo de fazer uma viagem de bicicleta, que recado você deixa?
AS – Faça um planejamento, mas não foque tanto assim, e vá. Não espere alguma coisa cair do céu. Eu vejo muita gente que sempre arruma uma desculpa para não ir. Dificuldades todo mundo tem pra tudo. É importante esquecer essas desculpas, olhar para si e ver o que você tem e não o que você não tem. Foca nas suas qualidades, supere suas dificuldades, faça uma análise e vá. Esse é o caminho. Ninguém que conseguiu conquistar alguma coisa teve uma grande facilidade. As grandes pessoas foram as que tiveram mais desafios. Se você quer fazer isso, começe a fazer. Uma viagem se faz fazendo. Fazer o que gosta é importante. Não precisa dar uma volta ao mundo, mas é importante fazer o que gosta.
Fotos: Arthur Simões
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