Kazuo Nakano - Polis_2

A redução de espaços destinados ao uso exclusivo de automóveis individuais é urgente

21 jul 2012

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O Instituto Pólis de Estudos, Formação e Assessoria em Políticas Sociais é uma organização não governamental de atuação nacional, com participação em redes internacionais e locais, constituída como associação civil sem fins lucrativos, apartidária, pluralista e reconhecida como entidade de utilidade pública nos âmbitos municipal, estadual e federal.

Fundado em 1987, a cidade, a atuação em políticas públicas e o desenvolvimento local definem a sua identidade. A reportagem de Bike Pedal e Cia conversou com Kazuo Nakano, urbanista e pesquisador do Instituto Polis sobre as condições atuais de transporte na região metropolitana de São Paulo.

Bike Pedal e Cia – Qual a situação atual da mobilidade na cidade de São Paulo?
Kazuo Nakano – A mobilidade na cidade de São Paulo está em estado crítico. O desconforto, as perdas de qualidade de vida e os prejuízos econômicos causados pelos problemas de mobilidade existentes na cidade afetam a todos os setores da sociedade. Essa situação gera tensões na vida cotidiana e, certamente, eleva o grau de tensões, stress e ansiedades nas relações interpessoais.

Dentre todas as metrópoles do país, a Região Metropolitana de São Paulo tem o maior percentual de pessoas que gastam mais de uma hora e meia para ir de casa para o trabalho. Esse percentual é um pouco maior do que 23% dos trabalhadores. Em segundo lugar vem a Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Ademais, a metrópole paulista é campeã em congestionamentos de veículos nas ruas e avenidas. Nos horários de pico é fácil verificar que esses congestionamentos superam os 100 quilômetros de extensão. A linha vermelha do metrô, única que atende os milhões de moradores da zona leste do Município de São Paulo, é a mais superlotada do mundo nos horários de pico. Isso obriga as pessoas a viajarem espremidas umas contra as outras no interior dos vagões. Nos poucos e insuficientes corredores de ônibus é comum vermos veículos lotados enfileirados em congestionamentos que não deveriam ocorrer. Nos bairros, os micro-ônibus demoram para passar em pontos de parada e, muitas vezes, circulam também lotados percorrendo longos percursos que deveriam ser mais curtos.

BPC – O Instituto Polis possui algum estudo que aponte soluções a curto, médio e longo prazos para resolver questões de transporte público na cidade?
KN - O Instituto Polis possui análises sobre as demandas sociais, distribuições de atividades, localizações de empregos, realização de investimentos, aplicação de instrumentos de planejamento urbano da cidade de São Paulo, dentre outros fatores, que tem relação com as condições de mobilidade urbana cujas soluções devem envolver propostas e investimentos para o transporte público articulados com uso e ocupação do solo e com a distribuição de empregos e oportunidades em todos os bairros.

BPC – Em sua opinião, o espaço dos carros deve ser diminuído em favor de outros modais de transporte?
KN – É impossível prever espaços na cidade de São Paulo para acomodar toda a frota de automóveis que existe atualmente. Essa frota chega a 7 milhões de veículos dos quais 4,5 milhões estão ativos e 2,5 milhões aguardam qualquer oportunidade para entrar em circulação. É realmente preciso reduzir o número de automóveis individuais em circulação nas ruas e avenidas da cidade sem diminuir as possibilidades de ir e vir das pessoas. Para fazer isso é necessário ampliar e integrar as ofertas de diferentes tipos de transporte motorizados e não motorizados, individuais e coletivos, sobre trilhos e sobre pneus. Isso já é quase um consenso entre os técnicos das áreas de transporte e planejamento urbano. Essas medidas podem e devem ser combinadas com a redução de espaços urbanos destinados exclusivamente para os automóveis individuais. A produção de terras urbanizadas é algo muito custoso para uma sociedade. É caro e trabalhoso produzir solos urbanizados dotados de equipamentos de saúde, educação, assistência social, entre outros, e de redes de abastecimento de água, de coleta e tratamento de esgotos, de fornecimento de energia elétrica, de telecomunicações, entre outras.

A sociedade mobiliza grande quantidade de recursos coletivos para ter terras urbanizadas adequadamente. Por isso é um erro e um desperdício enorme usar grande parte dessas terras urbanizadas para que somente uma pessoa circule dentro de uma máquina extremamente pesada, consumidora de fontes de energia não renováveis, emissora de poluentes e gases de efeito estufa e que, devido ao seu tamanho, ocupa espaço em excesso. É um erro e um desperdício maior ainda usar outra parte dessa terra urbanizada tão custosa para a sociedade para se deixar aquelas máquinas irracionais paradas a maior parte do dia e da noite em estacionamentos ou junto ao meio fio de ruas e avenidas. Por isso a redução de espaços destinados ao uso exclusivo de automóveis individuais é urgente. Podemos usar os espaços ganhos desses automóveis para melhorar e ampliar a oferta de espaços públicos, implantar ciclovias e organizar melhor a distribuição de atividades na cidade.

BPC – Como o senhor enxerga o papel da bicicleta na mobilidade urbana?
KN - A bicicleta tem um papel importante e uma grande potencialidade na mobilidade urbana e regional. Essa potencialidade está subaproveitada por causa da falta de investimentos que melhores as condições de circulação das bicicletas, que devem ser pensadas não somente para deslocamentos de curta distância, mas, também, para os deslocamentos de média e até longas distâncias.

A bicicleta é um dispositivo bastante racional de deslocamento, pois, se tiver condições adequadas, permite o ir e vir de modo confortável, consumindo menos espaços da cidade de modo a otimizar o aproveitamento do solo urbanizado, utilizando fontes absolutamente renováveis de energia (a energia vital das pessoas que podem aumentar conforme se aumenta o uso das bicicletas) e com nenhuma emissão de gases poluentes e de efeito estufa. Ademais, as bicicletas não encapsulam as pessoas. Isso é positivo, pois potencializa algo que é muito necessário numa cidade: a interação entre as pessoas.

BPC – Quais ações o senhor acredita que podem ser feitas a favor do aumento da segurança dos ciclistas no trânsito paulistano, lembrando que o Código de Trânsito Brasileiro (CTB) diz que lugar de bicicleta é na rua e não há possibilidade de se construir ciclovias em todas as ruas da cidade?
KN – Antes de mais nada, é necessário dizer que todas as obras viárias e de transporte público realizadas na cidade devem se integrar e incorporar ciclovias, inclusive as de maior porte como o Rodoanel e grandes avenidas.

Além das ciclovias com leito carroçável destinado somente para a circulação de bicicletas, acredito que é possível aproveitar partes dos leitos carroçáveis das ruas e avenidas, hoje destinadas ao estacionamento e circulação de veículos motorizados individuais, para ampliar calçadas que favoreçam a circulação de bicicletas de modo a não conflitar com a circulação de pedestres.

BPC – Em um período de quatro anos, o que é possível fazer para melhorar a qualidade de locomoção dos moradores de São Paulo?
KN – Os corredores de ônibus já estão sendo reconhecidos como uma medida necessária no curto prazo. Esses corredores devem ser cuidadosamente projetados para introduzir qualidade no espaço e na paisagem urbana. Portanto, devem ser soluções técnicas e estéticas. Outra medida importante a ser considerada é a melhoria nas vias que ligam bairros vizinhos, especialmente as áreas de moradias e os centros desses bairros dotados de comércio e serviços públicos e privados. Muitas pessoas fazem viagens curtas para irem a esses centros de bairros. Pode-se implantar ciclovias e linhas curtas de micro-ônibus que atendam as demandas dessas viagens inter bairros de modo a não sobrecarregar os sistemas que atendem as demandas de viagens mais longas. Outra medida de curto prazo interessante é a melhoria dos corredores de comércio e serviços que se estruturam ao longo de avenidas que podem ser objeto de projetos urbanos que melhorem as condições de circulação dos ônibus e micro-ônibus, de estacionamento e de circulação das pessoas e de bicicletas.



Quem escreve

Enzo Bertolini

Jornalista apaixonado por pedalar, adepto da bike como meio de transporte e corinthiano por natureza. Sonho com uma São Paulo mais habitável, mais ciclável, voltada para pessoas e não para carros.


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