“A bicicleta entrou na minha vida como um grito”

2 jun 2011

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Natural de Aracaju (SE), Aline Cavalcante tem 25 anos e está há três em São Paulo. Há dois anos e meio começou a pedalar e em pouco tempo adotou a bicicleta como meio de transporte. Aline é cicloativista e quase sempre pode ser encontrada na bicicletada, em reuniões sobre mobilidade urbana, em protestos na avenida Paulista e nas reuniões das Pedalinas, grupo de bike formado apenas por mulheres.

Dona de três bicicletas que usa de acordo com suas necessidades em São Paulo, é a mais nova moradora do tradicional edifício Copan, símbolo de uma época perdida da cidade. Em uma bate papo descontraído e cheio de assunto, Aline demonstra sua paixão enlouquecida pela bicicleta e conta como, por causa dela, fez muitos amigos.

Aline também dá opiniões contundentes sobre a mobilidade urbana em São Paulo, os desafios de usar a bicicleta em uma cidade desenvolvida para o uso do carro e o que precisa ser feito para que os ciclistas sejam, de fato, respeitados. Com vocês @Pedaline:

Bike Pedal e Cia – Como começou tua história com a bicicleta?
Aline Cavalcante - Eu começei a pedalar em São Paulo como meio de transporte há uns 2 anos e meio. Eu morava em Perdizes e estudava na Consolação e pegava um ônibus que demora de uma a duas horas e meia todo dia. Era um inferno, mesmo com o corredor de ônibus, tinha muito barulho e poluição. Eu fiquei seis meses nessa vida e estava na dúvida se eu trazia meu carro lá de Aracaju (SE). Eu sempre falava pra minha mãe: “ainda não, eu ainda não sei dirigir aqui em São Paulo, não conheço a cidade direito e tal…”. E eu gostava de transporte público em geral, eu acho super eficiente no centro expandido, tem muito ônibus, o problema é o trânsito, o excesso de carros, mas eu acho que é um transporte de qualidade, principalmente o metrô.

Depois de seis meses pegando a mesma linha de ônibis todos os dias eu já estava com mal humor, chegava na aula irritada, e sempre atrasada. Um dia eu li sobre o UseBike, aquele projeto de aluguel de bicicleta e resolvi alugar uma no final de semana. Eu lembro que eu fiz um caminho maluco por cima do Minhocão – estava fechado para carros -, passei por Santa Cecília, Perdizes, Pacaembu, fiquei o domingo inteiro pedalando. Conheci feirinhas, lugares diferentes e adorei!

Durante a semana inteira eu ficava pensando que eu queria pedalar mais no próximo final de semana. Nesse meio tempo eu começei a ver muita bicicleta na rua. Eu gostei tanto da sensação de pedalar em São Paulo que eu fiquei condicionada. Chegava sábado e domingo eu queria pedalar, porque durante a semana eu não tinha coragem. Eu começei a descobrir que eu podia alugar a bicicleta e ir no Shopping Frei Caneca, fora outros lugares. Como de sábado eu não podia pegar o Minhocão porque era aberto para carro, eu passei a conhecer novos caminhos e fiquei impressionada que da minha casa até a minha faculdade era muito perto, 10-15 minutos no máximo. Quando eu descobri isso foi libertador.

BPC – E como começou tua história com as Pedalinas?
AC - Eu começei a fuçar na internet sobre bicicletas e descobri a Bicicletada, as Pedalinas, todos os pedais noturnos da cidade, o cicloativismo etc, mas só como leitora, porque nem bicicleta eu tinha. Lá em Aracaju eu já conhecia o movimento Massa Crítica, mas não participava. Eu até assisti o documentário Sociedade do Automóvel, do jornalista Thiago Benicchio, que o pessoal da bicicletada passou em uma praça. Eu não tinha nem bicicleta na época. Então eu começei a ligar os pontos.

Eu entrei na lista da bicicletada e disse: eu quero uma bicicleta. Um amigo meu, sabendo que eu estava querendo uma bike, me ofereceu uma que ele tinha ganhado no primeiro São Paulo Bike Tour. Ele tinha feito melhorias nela, trocado peças etc e eu comprei dele. Foi a maior alegria da minha vida, a melhor aquisição que eu fiz em São Paulo.

A primeira vez que eu fui de bicicleta pra faculdade foi muito libertador. Eu fiz umas bizarrices, andei na calçada, na contramão, mas cheguei. No começo você não sabe como fazer, não tem auxílio pra andar de bicicleta em São Paulo. Saí uma hora antes de casa e cheguei em 10 minutos. Cheguei super suada, porque Perdizes é cheia de subida e descida. Com o tempo eu fui descobrindo o alforje, paralamas, coisas que você vai agregando conforme você vai gostando do negócio. Todo mundo ficou meio chocado, falando: “você nem é de São Paulo, como você é corajosa”.

Eu começei a ir sempre, enjoei de ônibus, tanto que meu Bilhete Único nem era mais usado. Nesse meio tempo eu fiquei descobri blogs e pessoas e me inscrevi para a bicletada. Quando eu cheguei aqui (Praça do Ciclista) eu já conhecia algumas pessoas da internet. Eu fui sozinha, porque eu não conhecia ninguém de São Paulo. Eles já me conheciam de me ver na rua. Eu era conhecida como menina da Porto (Seguros, responsável pelo UseBike). Em um mês eu fiquei amiga de um monte de gente. Foi paixão, um bichinho me mordeu. As Pedalinas vieram entregar panfleto durante a pedalada e o encontro era no sábado seguinte. Era o segundo encontro oficial, tinha umas cinco meninas, mas todas eram super experientes no pedal, eu era a mais nova.

Com as meninas das Pedalinas e as bicicletadas eu fui aprendendo caminhos, rotas, a me posicionar na via, como se comportar, regras, deveres, direitos, Código de Trânsito etc. Isso tudo foi bem gradual. Depois de um tempo eu vendi meu carro porque eu desisti de trazer e a bicicleta foi uma desculpa para eu não trazer de vez.

Com a grana da venda eu comprei a minha primeira bicicleta boa. Uma mountain bike. A bicicleta entrou na minha vida como um grito. Eu não vim para ficar muito tempo em São Paulo, eu vim pra estudar e ir embora. A bicicleta foi crucial pra eu me apaixonar por São Paulo, continuar aqui. Era para eu ficar só um ano e meio e eu já estou há três anos. Sem a bicicleta eu não iria aguentar a loucura e o caos de São Paulo.

A bicicleta me trouxe bem estar e muitos amigos. Hoje eu só ando de bike e uso transporte público eventualmente.



BPC – Como é a sua rotina?
AC - Minha rotina é meio louca. Eu hoje trabalho em Pinheiros e moro no centro. Eu pedalo todos os dias de casa para o trabalho e vice-versa, mas sempre no meio do caminho eu paro em algum lugar para falar com amigos. Já aconteceu de eu estar voltando pra casa e no meio do caminho eu encontrar um grupo de pedal noturno e me juntar a eles. Eu paro em bar, paro em cinema, aqui na Praça do Ciclista sempre tem alguém. Eu gosto muito de pedalar na avenida Paulista, para mim tem um peso muito simbólico porque foi onde eu fiz o meu primeiro pedal. Uma vez uns amigos me fizeram uma surpresa e foram me pegar no aeroporto de bicicleta. Estava chovendo muito naquele dia, mas eu me diverti demais. A bicicleta me trouxe tudo isso. A ponto de eu lutar para que haja melhorias na cidade. Eu abracei a cidade como se fosse minha. Eu luto por ela mais do que muita gente que mora aqui e eu nem voto aqui.

Eu fui adotada pelos ciclistas de São Paulo e adotei São Paulo. Não sei se eu vou ficar aqui pra sempre, mas estou super feliz.

BPC – Qual sua compreensão sobre os motoristas com respeito as bicicletas e como você se comporta no trânsito?
AC -
O trânsito não é nada amigável, não é convidativo. Tanto que as Pedalinas conseguiram apenas 30 meninas até hoje, o que é milagre. Em Porto Alegre, no primeiro passeio do grupo havia 40 meninas. Por quê? Porque o trânsito é hostil.

Por outro lado eu vejo que a cidade está buscando aceitar a bicicleta e apenas uma pequena parcela dos motoristas é bizarra. Mas a minha opinião é parcial porque eu sempre morei no centro onde o motorista respeita mais. Eu sinto que grande parte dos motoristas tem medo porque eles não sabem como você vai se comportar e acham que têm que fazer alguma coisa.

Grande parte dos problemas da bicicleta na rua pode ser resolvido com o posicionamento dos ciclistas na via. Se você sinaliza e orienta o motorista, o cara te entende e fala: “olha, ela sabe o que está fazendo”. O motorista é muito assustado e precisa ser auxiliado.

Visibilidade é importante. Alguns motoristas já me fizeram muito mal e me deixaram muita medrosa. Uma vez uma senhora me fechou de propósito, começou a me xingar de dentro do carro. As pessoas perderam a humanidade, o respeito, o trânsito enlouqueceu as pessoas. Eu tenho pena das pessoas no trânsito e sou tolerante até certo ponto porque eles são tão vítimas quanto a gente, vítimas de uma sociedade que dá valor a essa loucura, que estimula que você compre, que te vende uma liberdade que você nunca vai ter. A política pública é culpada por isso. Eu já fui igual a eles e você precisa se esforçar para sair dessa bolha, se você não estiver um pouco de esforço você cai na mesma rotina.

Aracaju é uma cidade plana, tem muita ciclovia, mas pedalar fora dela é um desafio, os carros correm muito. O que mais afasta as pessoas das ruas é a velocidade. Eu gosto de pedalar em São Paulo, já me acostumei. Os congestionamentos da cidade são os responsáveis pelo aumento de ciclistas porque aqui ninguém anda. O trânsito lento atrai as pessoas para as ruas, seja de bicicleta ou por outros meios.

As pequenas cidades se espelham muito em Sâo Paulo e até no trânsito eles copiam. Essa coisa que muito carro é sinal de desenvolvimento é um câncer. As pequenas cidades ainda têm chance de melhorar.

BPC – Como você faz para pedalar a noite?
AC -
Eu uso luzes, mas estão todas queimadas. Até as que eu trouxe do exterior, que diziam que era a prova d’água, queimaram. Luz é o principal em segurança. Capacete é um pouco mais polêmico. Eu larguei, não uso mais na cidade já faz um tempo. É uma decisão muito pessoal. Nos deslocamentos urbanos, se você não pega via expressa, só ruas de menor de velocidade controlada é mais tranquilo. Eu já caí na rua sem capacete e só ralei a mão. No fim eu acho a luva muito mais importante do que o capacete. Joelheira talvez até, porque eu já ralei muito o joelho (risos).

Eu incentivo as pessoas a usarem capacete, principalmente no começo, quando você cai até quando está subindo em guia. Na cidade eu não acho muito importante. O motorista tem que respeitar o ciclista, não importa se ele está de capacete ou não. E as pessoas da periferia que não têm recursos? E aqueles que trabalham como bike courriers e que não usam? Eu acho que quem quer, tem que usar mesmo. Segundo o Código Brasileiro de Trânsito não é obrigatório. Com o tempo você vai descobrir o que é melhor para você. Para mim, os itens de segurança obrigatórios são as luzes e luvas.

BPC – Fale um pouco da história das Pedalinas.
AC -
Veja a resposta aqui.

BPC – Como é a mulher no trânsito de São Paulo hoje?
AC -
A bicicleta é uma ferramenta incrível que proporciona auto-estima principalmente para a mulher, que tem lutado por mais espaço na sociedade. As Pedalinas são importantes por isso, tem o blog com informações e estimulou grupos de ciclistas femininas em outras cidades e regiões. A bicicleta deixa a mulher mais independente e é uma ferramenta poderosa de transformação social.

BPC – E para a menina que se preocupa com a transpiração e não pedala por causa disso. Que dica voce dá?
AC -
Não tem uma regra, meu conselho é sempre o mesmo. Começar de final de semana, conhecer suas rotas e trajetos, procurar na internet as rotas mais legais, conversar com pessoas na rede que já fazem isso. Não ir direto com a cara e com a coragem, é tudo um processo. Com o tempo você vai transpirar menos, as distâncias não serão tão grandes etc. Não adianta a pessoa comprar uma bicicleta e sair na rua. Procura saber a distância para o seu trabalho, se lá tem chuveiro, chama alguém para te ajudar no começo, sai mais cedo para pedalar para ir num ritmo mais tranquilo. Se não dá para pedalar com a sua roupa do trabalho, leva na mochila algumas peças de roupa, deixa outras peças no escritório, enfim, cada caso é um caso.

É importante começar devagar. Você precisa se acostumar com o barulho e a dinâmica do trânsito, como se portar, suas vias, suas roupas, seu jeito. Pedalar é muito gostoso e a bicicleta é muito sedutora. Quando o trânsito para eu acho que as pessoas nos carros devem ficar mordidos (risos). Imagina uma menina passando. Para um homem no volante é quase um soco no estômago.

Ao mesmo tempo você percebe que em alguns lugares você precisa ter velocidade, que não dá para ir muito devagar. Todo motorista está disposto a ser incomodado, porque em todo momento ele é incomodado por tudo. Mas ele não está disposto a ser atrapalhado. E eu não estou dizendo que a bicicleta atrapalha. Para mim, em momento nenhum a bicicleta atrapalha. Ao contrário, é sempre uma solução.

BPC – Qual a sua opinião sobre as ciclorotas? O que você prefere?
AC -
Primeiro, é preciso conscientizar o motorista que ele tem que respeitar a bicicleta. Não é porque ele gosta ou não, mas porque se ele não respeitar tem multas e punições que devem e precisam ser aplicadas.

Eu acho que tem que ter ciclovias nas vias de fluxo rápido, porque os carros correm muito. Mas essa não pode ser a única solução porque é impossível você fazer ciclovia na cidade inteira. No mundo ideal elas não estão presentes, ao contrário o respeito impera. Ciclovias têm importância nas vias de fluxo intenso, pesado e rápido.

Ciclorotas e vias alternativas são muito importantes e essenciais. A importância da ciclorota é mostrar para os ciclictas que existem alternativas. Além disso, é importante sinalização no chão para mostrar que tem bicicleta ali, é legítimo. E se o ciclista vier para uma via que não tem ciclovia, ele não pode ser discrimado ou ameaçado, por isso eu falei que tem que ter educação.

BPC – O prefeito de São Paulo Gilberto Kassab quer implementar um dia a mais da Ciclofaixa de Lazer um dia da semana no mês para que o motorista se acostume a dividir a via com o ciclista. O que você acha da ideia?
AC -
Eu tenho um pouco de medo e não olho com tão bons olhos assim. Porque primeiro a Ciclofaixa de Lazer é para o lazer não para deslocamentos. Ela está toda errada e não é para meio de transporte, ela está do lado esquerdo da via e não foi pensada para o transporte. Ela é como se fosse um parque linear. Eu acho incrível ter um parque linear. Adoro pedalar lá aos domingos, mas a gente não pode ver aquela estrutura como iniciativa de mobilidade.

O meu medo é o Kassab abrir uma vez por semana colocar cones e fechar cruzamentos, mobilizar pessoas com bandeirinhas, agentes da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), porque isso gera um gasto público, e isso não ter demanda. O trajeto da ciclofaixa é limitado de espaço e hora, as pessoas que estão ali no geral não vão deixar o carro em casa para sair de bicicletas, porque o percurso não contempla o destino delas. Domingo bomba porque é lazer, durante a semana não. Enquanto tem estrutura tudo bem, mas você deseduca o ciclista. Quem pedala sabe que a faixa da esquerda é a mais perigosa.

BPC – O que você pensa sobre o ciclista que adapta as regras de trânsito de acordo com a necessidade?
AC -
A bicicleta não é aceita oficialmente como meio de transporte na cidade. O cclista urbano hoje adquiriu hábitos de sobrevivência. Se o poder público não me dá visibilidade, eu vou procurá-la. Eu respeito muito pedestre, mas ao mesmo tempo eu furo faixa. Na Europa existe um negócio chamado Bike Box, que fica na frente da faixa de pedestres e que dá espaço e tempo suficientes para o ciclista ganhe velocidade. No dia que fizerem algo pensado aos ciclistas pelas pessoas que pedalam eu vou respeitar ao máximo. O ciclista urbano tem procurado maneiras de sobreviver no trânsito. Eu não vou concorrer com o carro senão eu vou morrer, óbvio. O dia que tiver um código para bicicleta, pensado e formulado por ciclistas eu vou respeitar.

BPC – Que ideia você apresentaria para a Secretaria de Transportes em favor do ciclista urbano?
AC -
A primeira coisa é multar e punir quem não respeita bicicleta. Começar a aplicar as leis. Hoje um babaca acelera contra ciclistas em Porto Alegre porque ele sabe que vai responder em liberdade. Outra coisa é reduzir velocidade. Eu prefiro que me ultrapassem mais devagar a meio metro de distância do que passar correndo a três metros em alta velocidade.

BPC – Quantas bicicletas você tem?
AC -
Eu tenho três: uma fixa, que eu uso no dia a dia; uma MTB para compras, viagens e dias de chuva; e uma Dahon, que é intermodal e que eu uso para viajar, caronas, para sair etc. Eu posso beber e no fim da noite dobrar, por no porta-malas de um táxi e ir para casa.



Quem escreve

Enzo Bertolini

Jornalista apaixonado por pedalar, adepto da bike como meio de transporte e corinthiano por natureza. Sonho com uma São Paulo mais habitável, mais ciclável, voltada para pessoas e não para carros.


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