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Bicicleta parada não leva a nada

Publicado em: 23 set 2011 por Enzo Bertolini

No centro de São Paulo, um grupo de apaixonados por bicicleta têm se reunido às sextas-feiras a noite para investirem seu tempo de descanso e lazer fazendo manutenção de bicicletas usadas. Eles são, o que se pode chamar de empreendedores coletivos, pois têm dedicado tempo, esforço e dinheiro para que bicicletas que estavam encostadas se transformassem em objetos de desejo por aqueles que não têm uma companheira de duas rodas.

Assim está começando o projeto Coletivas, que quer espalhar bicicletas recicladas (ou recicletas) por São Paulo em uma cadeia de empréstimo gratuito inspirado no Couch Surfing. Para conhecer um pouco mais de como surgiu a ideia e o que foi feito até o momento, o Bike Pedal e Cia acompanhou uma oficina onde a Tica foi ressuscitada com muito charme.

No Bixiga, reduto italiano e tradicional bairro da cidade, a desmontagem e limpeza das peças da Tica começou ao som de Bob Dylan. Além de deixar o ambiente mais relax, serviu para abafar o funk pesado que vinha do vizinho. A Michele, além de cuidar da trilha sonora, se empenhava em deixar a coroa da Tica brilhando. O Rogério, vulgo Urbanit, mestre das ferramentas e mentor do pessoal da manutenção, estava dando uma nova cor à cestinha que a Tica ganhou de presente da Michele. Já o Fabrício, quebrava a cabeça para remontar um freio, enquanto falava com a reportagem do BPC. E o Afonso ficou responsável pela lavagem de algumas peças no tanque e pelo pedido da pizza no final da noite, além de mostrar seu palacete à reportagem.

Em um espaço pequeno a risada e a camaradagem rolam solta. A Michele, mesmo depois de esfolar a mão limpando a coroa e com um fiapo de Bombril no dedo, mantém o sorrisão no rosto. O Rogério divide sua história de amor com a bike com o pessoal e como ele vendeu sua bike para comprar a aliança de casamento. O Fabricio, atenta a tudo, registra com fotos o momento e comenta sobre seu sonho de sair em uma grande viagem de bicicleta com o amigo Afonso. Com um chá quente na mão, o Afonso conta da sua relação com a dona da casa e com seus colegas de moradia, e como planeja para um futuro próximo que todos os cinco moradores da casa possam pedalar pela cidade juntos.

Para conhecer um pouco mais sobre esse coletivo, acompanhe a entrevista coletiva (com o perdão do trocadilho) abaixo e se apaixone por essa iniciativa. Afinal “bicicleta parada, não leva a nada”.

Bike Pedal e Cia – Como surgiu o Coletivas e como vocês se envolveram?
Rogério Vieira Lopes (Urbanit) – Um email foi o estopim do projeto. O JP mandou uma mensagem sobre bike usada. Eu sabia de uma pessoa que tinha uma Caloi Ceci para vender e fui até esse prédio onde o zelador estava vendendo essa bicicleta para liberar espaço. Quando eu cheguei lá ela já tinha doado a bike, no fim ele acabou nem vendendo. Em um domingo eu fui a um prédio (ele trabalha com manutenção de elevadores) e vi algumas bikes antigas lá paradas, cheias de poeira e nesse mesmo email do JP eu já emendei, “bike usada – plano de doação”. Depois o Mauricio acrescentou uma ideia, o Fabricio também e a coisa foi crescendo. Ou seja, o Coletivas não tem um criador, ele é coletivo, é como uma flor de girassol “todos formam um tudo”.

Fabrício Muriana – A gente conversava na lista da Bicicletada que sempre aparecia alguém que precisava de uma bicicleta para fazer um rolê. E alguém sempre emprestava. Principalmente no dia da Bicicletada, o Maurício, que não está aqui, ele dava um jeito de arranjar mais bikes porque a casa dele era perto da Bicicletada. Nós percebemos que há uma demanda latente por pessoas que começaram a pedalar e um estoque de bicicletas paradas muito grande. Ele só não está centralizado em algum lugar online. Basicamente a gente começou a pensar como isso poderia ser feito e assim foi nascendo a ideia das Coletivas, inclusive com eleição de nomes para o projeto.

Michele Mamede – O pessoal estava para fazer a segunda reunião e alguém postou um link de organização na Alemanha que fazia bicicletas de bambu. Por causa disso, surgiu a discussão de montarmos uma bicicleta de bambu. O Rogério (Urbanit) perguntou se alguém falava alemão, eu me voluntariei e fui parar na reunião sem nem saber do que se tratava. Eles explicaram o que era o projeto e eu adorei. No final, a ideia de montar uma bicicleta de bambu não deu certo, porque a ONG faz workshops e ensina a montar esse tipo de bicicleta lá. E não tinha como ninguém ir para lá. Logo na sequência surgiu uma doação de bicicletas de um condomínio e nós decidimos ir em frente com o que tínhamos.

Semana passada (9/9) a gente desmontou e montou a primeira bicicleta. O Rogério entende muito de bicicleta. Sinceramente, de mecânica de bicicleta eu não entendo de nada. Eu aproveito para aprender e colaborar. Esse projeto é super válido para quem não tem bicicleta. Eu mesmo não tinha uma até pouco tempo atrás. Na verdade eu peguei a da minha irmã emprestada e trouxe de São Paulo para poder usar (ela morava em Itanhaém). Esse é um projeto que vai beneficiar pessoas como eu.

BPC – A primeira doação veio de onde?
Fabrício – Nós recebemos nossas primeiras bikes de um condomínio na Vila Mariana.

BPC – E como surgiu essa doação? Quem conseguiu fazer essa ponte entre o condomínio e vocês?
Fabrício – Por meio de uma rede de contatos. Uma garota chamada Gabriela Kato acompanhava as discussões no grupo da Bicicletada e disse que estava para liberar umas bikes no condomínio de um amigo dela.

Rogério (Urbanit) – era do sogro dela.

Fabrício – A gente topou e pediu que ela pegasse o contato de alguém do condomínio para entrarmos em contato. Eu liguei, falei com o zelador e ele disse: “não há problema em doar as bikes, mas tem que ser amanhã”. E nós fomos buscar no dia que ele pediu.

É tudo meio interligado, uma rede de redes. Ela faz parte da lista da Bicicletada e apesar de nunca ter ido à nenhuma reunião do Coletivas, viu que estava rolando o projeto, deu um toque e a gente pegou as bikes no condomínio. Aliás, precisamos agradecê-la.

BPC – Quantas bicicletas vocês têm no projeto?
Fabrício – São duas bicicletas aqui (casa do Anderson), mais uma na Sumaia, outra na minha casa, mais uma Caloi 10 Jovem, que a gente ainda não sabe o que vai fazer, e mais sete bicicletas de criança na casa do Cesar, amigo do Urbanit.

BPC – Qual o destino que vocês vão dar para essas bicicletas infantis?
Fabrício – Nós temos duas opções de modelo. Uma delas é emprestar para uma criança durante sua infância toda, até que a idade ou tamanho dessa criança não permita que ela use mais a bicicleta. A outra opção é coletivizar por meio de um movimento, como o de ocupação do centro. Eu conheço um pouco esse movimento e sei que tem muitas crianças que não têm bicicleta. Então, ao invés de darmos uma bicicleta para cada criança naquele esquema Papai Noel, a gente dá para o movimento e eles coletivizam entre as crianças. Mas ainda vai demorar um pouco para a gente conseguir chegar nelas, porque nosso foco está nas bikes adultas e nosso ritmo é lento. Nosso objetivo não era esse, então essas bicicletas estão em último lugar na prioridade de conserto. Tem muita bike.

Michele – as bicicletas infantis também permitem que a gente faça oficinas com crianças. A criança se mexe, faz exercícios e se motiva para aprender e ter respeito pela bicicleta, compreender que não é só lazer e diversão, mas também transporte, aprender a dividir, pois a bicicleta seria compartilhada com outra criança. Ao trabalharmos com a criança vamos tornar adultos mais conscientes na mobilidade urbana.

BPC – Vocês estão aceitando mais doações? Pergunto por que há em muitos condomínios dezenas de bicicletas encostadas.
Fabrício – Nós queremos doações sim, mas nós não temos como fazer o que fizemos na primeira doação – pegar todas as bikes e levar para um lugar. Se tiver uma doação a gente tem que retirar aos poucos e destinar para diferentes lugares aos poucos. Como as bikes vêm de todos os jeitos, possivelmente teremos que desmontá-las e fazer toda a revisão. A que está na minha casa, por exemplo, a gente só vai montar a corrente, fazer uma manutenção básica e colocar para rodar.

BPC – Vocês já emprestaram uma bicicleta para uma garota na Bicicletada de agosto, certo?
Fabrício – Sim, é a Prima (cada bike será batizada com um nome que a tornará única com sua história). Essa bike foi prometida para um gringo que estava fazendo Couch Surfing, mas ele sumiu, então nós emprestamos para a Marcela, que já está querendo pegar de novo para ficar mais um tempinho. A Prima já está dentro da ideia do projeto. Como qualquer bike que fica parada muito tempo, ela precisa de manutenção, mas ela não foi como as outras, que nós precisaremos desmontar inteira, ela só precisou de alguns ajustes.

BPC – Vocês já pensaram em juntas as ideias e o projeto Coletivas com o pessoal do Oficina Mão na Roda e tentar atingir o maior número de bicicletas possíveis?
Fabrício – A ideia inicial era essa. Mas houve um problema: a gente não podia deixar as bikes lá na sede da Oficina Mão na Roda (na Vila Madalena). Elas não estão rodando e fica inviável fazer a manutenção dessas bikes em um lugar que elas não estarão fixas. O único entrave foi esse, eles não tinham como receber as bicicletas, senão a gente já teria juntado um projeto com o outro.

BPC – Usar um carro para transportar as bicicletas até lá fazer a manutenção e retornar também é uma alternativa…
Fabrício – Se a gente tivesse uma pick up provavelmente a gente faria isso. No dia que a gente foi recolher as bicicletas, o Gustavo, um rapaz da comunidade nos ajudou e nós somos super gratos por isso, porque ele foi com a pick up dele, retirou as bicicletas e levou pra casa do Cesar, amigo do Urbanit. Agora isso não tem como acontecer sempre, pois você teria que ter alguém do grupo que tenha um carro desse tipo e isso não aconteceu ainda. Se pintar alguém com esse transporte será ótimo. Não só para fazer a manutenção. Você imagina que a gente consiga novas doações de bicicleta, a gente precisa de um jeito para transportá-las, senão terá que ser no metrô, no ônibus, na mão, caminhando etc. Ou então como o Urbanit fez. Ele foi na casa do César, deu um “tapa” só para as bikes voltarem a rodar e saímos eu e ele de Caloi Cruiser na avenida Paulista, dando sprint e passando na frente dos carros.

Rogério (Urbanit) – A gente comprovou que elas estavam bem, mesmo que a gente tenha dado só “um talento” rápido, certo Fabrício? Elas rodaram cerca de 7kms.

BPC – Uma das coisas que eu vi no blog do Coletivas é a maneira que vocês estão organizando a hospedagem das bikes, o empréstimo e o compromisso das pessoas. Vocês podem detalhar um pouco de como isso vai funcionar e como vocês pretendem colocar em prática?
Fabrício – Conceitualmente nós temos dois modelos possíveis dentro do projeto para as pessoas entrarem. Uma é como usuário, ou seja, a pessoa que precisa de uma bicicleta para rodar por São Paulo e a outra é como zelador, que é basicamente a pessoa que cuida de uma bicicleta que se tornou coletiva. Previamente, a gente não tinha pensado nesse modelo aqui, que é o do trabalho (manutenção das bikes). Esse lance se deu por conta das bikes que apareceram da doação.

Rogério (Urbanit) – Nós somos muito gratos ao Afonso pelo espaço e a gente está fazendo as coisas aqui no improviso. No meio dessa bagunça organizada, um vai fazendo uma coisa, outro vai fazendo outra.

Fabrício – como definição prévia nós temos os zeladores que vão receber essas bikes que nós estamos cuidando aqui e os usuários, que a gente crê que há uma demanda latente. Esse é o formato definido. A centralização das informações será no site, provavelmente com um aplicativo do Google Maps, para que as pessoas saibam onde as bikes estão. Também haverá um perfil das bikes, algo que a gente definiu lá atrás, no começo da ideia, e a gente chama de Tico e Teco, porque todas as bicicletas vão ganhar um nome, uma identidade própria.

BPC – No site vocês falaram que vão fazer registros secretos nas bikes, isso vai mesmo rolar?
Fabrício – Vai sim, mas por enquanto a gente ainda não definiu como vai ser feita a identificação das bicicletas pelo projeto. Temos algumas ideias no ar e tem que ser a mais barata possível porque a gente não tem verba nenhuma. E o registro secreto a gente ainda vai definir onde vai fazer, individualizado em cada bike, mas é mais para um controle, porque no final das contas, pensa que uma rede das bicicletas coletivas, passe a ter 50, 100 bicicletas. Serão muitas pessoas envolvidas e muita gente vigiando também caso elas sejam roubadas. Acho que esse é o aspecto de segurança que é mais importante.

Rogério (Urbanit) – é um seguro barato, sem custo. Ou seja, os seguros são esses pequenos códigos inseridos no quadro da bike, por exemplo, e os olheiros que conhecem as coletivas.

Fabrício – a gente sabe que quando se rouba uma bicicleta ela é desmontada, então a única coisa que a gente tem são essas marcas que vai ficar além de qualquer desmontagem. A ideia é que isso seja diferente bike a bike e que só o zelador saiba. Mas sinceramente esse é um problema que a gente não está muito preocupado por enquanto. A gente que pedala todo dia, sabe que esse é um problema menor. No Brasil rola muito menos roubo do que em cidades onde o fluxo de bicicletas é maior.

BPC – E os materiais para a manutenção, onde vocês conseguiram?
Fabrício – teve de tudo. As coisas que você trouxe, Michele, você pegou da sua casa né?

Michele – esses produtos de limpeza eu comprei. Mas tem coisas que a gente está doando e tem coisa que a gente está comprando.

Fabrício – nós trouxemos algumas peças para cá que provavelmente serão colocadas em outras bikes. Dessa bike que nós estamos fazendo a manutenção nós ganhamos a doação da cesta da Michele. As peças de reposição que foram cabo, conduíte e sapata de freio custou R$9 tudo. Por enquanto nós estamos colocando do nosso bolso, mas se começar a ficar muito pesado a gente vai ver se tem doação na Bicicletada.

BPC – Vocês têm alguma restrição a receber doação de peças, mão de obra ou dinheiro?
Fabrício – Quando envolve a relação da grana fica mais complicado, senão teremos que ter uma administração central de grana e não é isso que a gente quer. É melhor a pessoa perguntar o que as bikes precisam e comprar a peça. Sobre o restante não temos nenhuma restrição.

Rogério (Urbanit) – Nós queremos focar em doações mesmo.

Fabrício – Acho que hoje o que a gente mais precisa é mão de obra.

BPC – Há um dia fixo para se reunir e fazer a manutenção?
Fabrício – A gente tinha pensado em se reunir às segundas e sextas para isso, mas só rolou de sexta até agora. E a gente define a próxima reunião sempre no final da última.

Michele – na última reunião nós saímos daqui mais de meia-noite, então as reuniões de segunda ficam um pouco mais difíceis.

Fabrício – seguindo o modelo de um outro grupo, nós temos um calendário quase periódico (risos).

BPC – O que é necessário para se tornar um zelador?
Fabrício – As bikes que nós temos hoje já têm zeladores. As próximas bikes vão precisar de novos cuidadores. É só mandar um email que a gente marca para a pessoa visitar a oficina, conhecer o projeto e para gente também conhecer a pessoa.

BPC – A ideia é ter zeladores em todas as regiões da cidade?
Fabrício – Sim.

BPC – Para terminar, o que mais vocês podem falar do Coletivas?
Fabrício – eu quero reforçar o lance das doações de peças. Quanto mais estranha melhor, porque a gente recebe bicicletas de todos os tipos. E mão de obra também. Eu mesmo, uma das coisas que me movem em estar aqui é aprender a mecânica de bicicletas.

Rogério (Urbanit) – é importante destacar também que os pedalantes (eu gosto deste termo) que pegarem as bikes têm que ter zelo. O zelador é o protetor principal da bicicleta e é ele que vai decidir quem vai pedalar ou não. Não vai ter uma restrição, mas irão valer as referências anteriores. Se a pessoa pega a bike, usa e a devolve limpa, isso é ótimo. Se o outro pega uma e instala uma buzininha, está ótimo. Ou seja, a ideia é que o próprio pedalante faça melhorias na bike e ajude a conservá-la, ele terá liberdade para isso. E o pedalante vai ganhar pontos com isso no histórico dele. Se alguém pega uma bike e devolve como a pegou isso é bom, mas se devolver toda “zuada”, vai perder pontos e não terá preferência mais para os empréstimos.

Fabrício – Quando a gente tiver um sistema central no site esse tipo de referência será ótima. É muito parecido com o Couch Surfing, que tem um sistema de referências de quem viajou e de quem recebeu. Se você zonear a casa de alguém, você não vai mais viajar pelo couch surfing e a gente quer implantar isso no Coletivas também.

Para saber mais sobre as oficinas e como colaborar com o Coletivas, acompanhe o site deles: www.coletivas.mobi

Fotos: Enzo Bertolini e Coletivas

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BPC entrevista Alison Ferreira: 14 anos e 23 medalhas

Publicado em: 22 ago 2011 por Diego Viñas

Alison Ferreira ainda é um menino, Aos 14 anos, ele é um dos destaques do Campeonato Escolar Olímpico organizado pela Secretaria de Esportes do Estado de São Paulo. Nascido em Guarulhos, Alison se espelha em um ídolo que mora no mesmo teto que ele: seu pai, Salomão Ferreira, que é ciclista profissional e compete pela equipe de Pindamonhangaba.

Também integrante da equipe de Pinda, Alison só representa Guarulhos no Escolar Olímpico por causa do apoio da escola onde estuda, o Colégio Júbilo, que fica no bairro de Bonsucesso, em Guarulhos, o mesmo da casa da família Ferreira.

ASSISTA AQUI AO VÍDEO DO DEPOIMENTO DE ALISON E SALOMÃO FERREIRA.

No Ibirapuera, Alison ganhou tudo o que disputou e garantiu vaga para Seleção Paulista que vai a João Pessoa, em setembro

Para essa entrevista , o Bike, Pedal e Cia acompanhou Alison em um dia na sua escola para saber mais sobre esse talento do ciclismo nacional. Além disso, também estivemos com ele e seu pai na quinta e última etapa do Campeonato Olímpico e seletiva, que aconteceu no último sábado, dia 20, no Ginásio do Ibirapuera, na Zona Sul da capital paulista.

Tal pai, tal filho - Salomão e Alison Ferreira exibem a paixão que têm em comum... o ciclismo.

No dia seguinte (domingo, 21), Salomão nos informou com exlusividade que Alison havia vencido a quinta etapa e a seletiva. Resultado: Alison viaja em setembro para o Olímpico Brasil em João Pessoa, na Paraíba. Moleque não é fraco, não!

Perfil

Alison exibe uma de suas favoritas da 23 medalhas que já conquistou

Nome: Alison Ferreira
Idade: 14 anos
Esporte: Ciclismo de estrada
Especialidade no esporte: Passista e sprintista (velocista)
Ídolo: Lance Armstrong (ciclista norte-americano) e Baiano (ciclista da equipe de Pindamonhangaba)
Em outro esporte: Ronaldinho Gaúcho
Prato: Feijão, arroz, repolho e bife com pouca gordura, feito pela Dona Eilane (sua mãe)
Primeira bicicleta: Uma Vicini preta e branca. “Desci uma rua muito rápido e bati com ela num carro. Quebrei o quadro da bicicleta ao meio. Ainda bem que não aconteceu nada comigo”, lembrou.
Bike atual: Giant
Música: California King Bed (Rihanna)
Filme: Homem Aranha 3, que ele viu no cinema com sua mãe no dia de seu aniversário.

Vitórias já acumulam 23 medalhas no esporte

Bike Pedal e Cia: Quando você começou a pedalar?

Alison Ferreira: Eu tinha 2 anos.

BPC: E depois de tanto tempo, o que o ciclismo representa pra você?

Alison: O ciclismo representa harmonia, felicidade. Tudo na minha vida.

BPC: Quem mais te incentivou?

Alison: Meu pai. Ele é meu treinador, me dá bronca quando precisa, me ensinou a pedalar, me leva nas provas…

BPC: E o restante da sua família, também o apoia?

Alison: Sim. Minha mãe (Eilane Ferreira) pega no meu pé na hora de comer. É minha nutricionista. Meus irmãos são meus torcedores. Quando os ouço gritar numa prova fico até mais empolgado pra vencer.

BPC: Então, se seu pai é seu treinador, onde vocês treinam?

Alison: Na base do Aeroporto (em Cumbica, Guarulhos). Ali, tem vários outros ciclistas que treinam também. Mas não é tão seguro. Tem motorista que não respeita e passa em alta velocidade. Infelizmente, é muito difícil ser ciclista aqui em Guarulhos. Não tem muita opção pra você pedalar, ciclovias, ciclofaixas. Por isso somos obrigados a treinar lá.

BPC: Já pensou em fazer outro esporte?

Alison: Eu faço judô também. É o meu segundo esporte. Já tentei jogar futebol, mas sou muito ruim (risos).

BPC: Então você só pensa em ser ciclista?

Alison: É o que quero fazer da minha vida. Eu tento fazer tudo o que o meu pai faz. Ele também trabalha nuam metalúrgica, então eu pretendo fazer um curso do Senai de Mecânica e Usinagem. Sei que ciclismo pode não me sustentar, então quem sabe não tenha outra profissão.

BPC: E como é a relação com seus amigos na escola, na sua rua? Eles manjam de ciclismo?

Alison: Eles não entendem muito. Não conhecem os campeonatos e só falam de futebol. Converso mais em casa. Eu até tento explicar para alguns como funciona. Aqui no Brasil só se fala de futebol, então eles não conhecem porque não passa na TV. Meus amigos querem ser como seus ídolos no futebol.

Durante aquecimento na 5ª etapa do Campeonato Escolar, no Ibirapuera

Campeonato Escolar Olímpico

BPC: Conte como foram as etapas até hoje:

Alison: Na primeira eu não pude ir. Comecei na segunda etapa, que foi em Boituva (interior de SP). Era um circuito plano que durou uns 10 quilômetros. Terminamos a prova em meia hora mais ou menos. Eu venci depois de dar um sprint faltando 100 metros. Antes, fiquei o tempo todo na roda do adversário.

Na 3ª etapa, foram umas 10 voltar com 360 metros cada. Foi rápida, de uns 15 minutos só. Foi no velódromo de Americana e quando cheguei pra vencer, levantei a mão pra comemorar. Só que eu olhei pra trás pra ver se tinha alguém, quando virei de volta, quase bati num cone. Eu podia ter caido e perdido a etapa. Meu pai me deu uma bronca. Disse “não faz mais isso moleque”.

No Guarujá eu também venci. Tava muito frio e ventando. Foi a 4ª etapa e eu já estava classificado para a seletiva. Tentei ajudar um amigo meu, o Felipe, mas acabei vencendo. Ele conseguiu ficar em 4º e também se clasisficou.

BPC: E é verdade que você correu duas provas neste dia? Foi no Dia dos Pais, não é?

Alison: Sim. Eu saí correndo daquela prova e fui correr no mesmo dia o Campeonato Metropolitano. Eu venci também na categorai infanto juvenil, duas acima da minha. Tinha uns 15 ciclistas. Era Dia dos pais então foi um presente que dei para o meu. Venci duas provas no mesmo dia.

 

 Confira aqui a matéria de Alison para o jornal Folha Metropolitana, de Guarulhos. 

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“A zona norte está ficando para trás”

Publicado em: 17 ago 2011 por Enzo Bertolini

Todo técnico de futebol gosta de ter em seu time um jogador que tenha habilidade para jogar em diferentes posições. Em situações de necessidade o treinador sabe que pode contar com esse atleta para cobrir um companheiro que está machucado ou suspenso.

Em São Paulo, uma mulher incorpora esse espírito coringa do futebol com muita propriedade. Sonia Francine Gaspar Marmo, ou simplesmente Soninha, fez magistério no 2º grau e estudou cinema na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Entre 1990 e 2000 trabalhou na   MTV como produtora, coordenadora de produção, redatora, diretora de programas e apresentadora. Também trabalhou com conteúdo jovem na TV Cultura e America Online. Foi comentarista esportiva na ESPN-Brasil, Folha de São Paulo e no sistema Globo/CBN de rádio. Editou um blog na Folha Online e, durante o ano de 2007, fez parte do programa “Saia Justa”, da GNT. Assina uma coluna na revista mensal “Vida Simples” e tem quatro livros lançados sobre budismo, futebol (2) e adolescência. 

Na vida política, exerceu um mandato de vereadora. Foi candidata à prefeitura de São Paulo em 2008 e obteve mais de 250 mil votos. Foi subprefeita da Lapa entre janeiro de 2009 e abril de 2010. Foi coordenadora do site oficial da campanha de José Serra à presidência e desde fevereiro de 2011 é Superintendente da Sutaco, autarquia do governo que promove e difunde o artesanato paulista. No bate-papo abaixo – realizado logo após o Libvee -, Soninha expõe sua opinião sobre políticas públicas para a inclusão da bicicleta como meio de transporte, necessidades a curto prazo, além do esquecimento da zona norte de São Paulo (região onde cresceu) pela administração pública de São Paulo.

Bike Pedal e Cia – O que você achou do trajeto e da estrutura do Libvee?
Soninha Francine - Como uma primeira tentativa foi bom porque deu pra gente curtir o conceito da experiência, não é só uma pedalada simplesmente de um lugar para o outro. E foi bom para a gente aprender para as próximas. A gente pode aprimorar algumas coisas, podemos ser menos otimistas em relação ao percurso. Eu percebi que eles mudaram o trajeto e foi muito sábio da parte deles. Eu acho bom ser um pouco menos otimista. É legal que o Libvee seja para pessoas de todos os graus de experiência de bicicleta e não só para ciclistas super experimentados. Isso é uma coisa importante sobre andar de bicicleta na cidade. Tem que ser para qualquer um, não pode ser só para atleta corajoso, audacioso, com uma super resistência física. O Libvee é uma maneira de oferecer para essas pessoas essa primeira experiência de pedalar pela cidade com companhia, com guia, com trilha sonora para que depois elas se animem mais a andar de bicicleta num dia normal.

BPC – Alguns políticos participaram do evento, entre eles o secretário Eduardo Jorge. Você acredita que esse tipo de evento seja um incentivo para que sejam feitas políticas públicas para o ciclista com o objetivo de inclur a bicicleta como meio de transporte em São Paulo?
SF – Desejavelmente sim, mas não é nem porque havia alguns políticos aqui, até porque o Eduardo Jorge, por exemplo, é um cicloativista de primeira hora. Eu ficaria surpresa se viesse algum político que nunca pedalou.

BPC – O Marcelo Branco (presidente da CET e secretário de transportes de São Paulo)?
SF – Eu não sei, mas eu vejo ao menos que ele tem dado um impulso a mais nas medidas a favor da  circulação de bicicleta. O fato é que de uns anos para cá, eu não tenho a menor dúvida, de que a noção de que bicicleta é útil, desejável e possível se ampliou na sociedade de um modo geral e na  classe política. Em 2005, quando a gente falava de bicicleta na Câmara Municipal, parecia uma coisa alternativa, bizarra. Hoje em dia não, está no discurso de muita gente, eu já vi até o [Paulo] Maluf falar em ciclovia. Com tudo que isso tem de embalo, de moda – e para algumas pessoas é um impulso passageiro -, tem uma mudança de cultura acontecendo. Então quanto mais eventos diferentes houver melhor.

BPC -O que os nossos governantes podem fazer em um curto prazo para melhorar a vida do ciclista na cidade de São Paulo?
SF – No curto prazo sinalização. Você não precisa necessariamente fazer grandes obras de engenharia, como uma ciclovia, que nem é uma grande obra de engenharia comparada com outras obras viárias. Mas de qualquer jeito é uma interferência mais forte na paisagem urbana, seja sacrificando uma parte do viário do automóvel, de calçada ou do canteiro central.

O fato é que a gente não precisa só de ciclovia, aliás, tem lugares que não precisa de ciclovia,  em que é perfeitamente possível e desejável fazer o uso compartilhado. Então para isso a gente precisa sinalizar para os próprios ciclistas dizendo “não vai por aqui. Essa avenida não é muito amigável para ciclista. Pega a paralela”. Você pode ter mapas, pode ter sinalização horizontal e vertical indicando melhores caminhos para os ciclistas e chamando a atenção dos motoristas, mostrando: “olha, presta atenção porque aqui tem e vai ter mais ciclistas passando”. Essa é uma intervenção muito simples de se fazer: identificar as rotas mais importantes, mais desejáveis e sinalizar imediatamente. Então eu fico meio impaciente porque isso já podia ter sido feito, mas a gente está cada vez mais perto disso. As pessoas de um modo geral estão cada vez mais concordando com isso.

BPC -Você já experimentou a ciclorota do Brooklin?
SF – Vi no mapa só, ainda não cheguei a pedalar por lá porque não é muito o meu caminho, eu quase não vou para aquele lado. Mas estou acompanhando. Na verdade já existem vários desenhos de ciclorotas esboçados há muito tempo no Butantã, no Brooklin, em Santo Amaro. E não só de ciclorotas, mas do sistema cicloviário para a cidade. Parece que agora vai, que agora é para valer. Tomara!

BPC -As experiências da prefeitura em qualquer política pública para bicicletas são feitas, na maioria das vezes, nas zonas sul e oeste, enquanto a zona leste conta com a ciclovia da Radial Leste, entre outras na região. Já a zona norte não existe no mapa de São Paulo para nada nessa área. Você tem conhecimento de algum plano da administração pública para a zona norte?
SF – Eu vejo que muita coisa pode ser feita lá. Tudo bem que a medida que você vai chegando mais próximo da Serra da Cantareira, de fato vai ficando um terreno mais acidentado e talvez uma coisa leve a outra. Não dá para saber quem nasceu primeiro, se as pessoas pedalam pouco porque as condições são ruins ou se as condições não melhoraram tanto porque não tem tanta gente pedalando. O fato é que alguém já me encaminhou essa pergunta pelo twitter e eu lembro que eu passei adiante para uma pessoa da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) ou da Secretaria de Transportes e a resposta foi: tem razão. A zona norte está ficando para trás, mas parece que tem uma ciclofaixa de lazer planejada. O que não é um ganho do ponto de vista da locomoção, mas é um ganho do ponto de vista da cultura, da visibilidade, da experiência. Pô, está muito fácil fazer uma ciclofaixa de lazer na Braz Leme, por exemplo.

BPC -Se juntar com a Luiz Dummont Vilares, se ganha uns 12 quilômetros de área…
SF – Com certeza. E para o outro lado, mais para noroeste, a avenida Engenheiro Caetano Alvares, é uma baita conexão importante e terminando, de preferência em uma travessia de bicicleta em cima do Tietê. Quando eu estava na Subprefeitura da Lapa a gente tentou encaixar como contrapartida das obras da Marginal a construção de passarelas para pedestres e ciclistas. Não conseguimos emplacar nenhuma, infelizmente, mas pelo menos na Marginal Tietê onde já existe um ramal ferroviário desativado está bem encaminhado também para ser uma travessia de não motorizados (pedestres e ciclistas). Esse é um outro problema de São Paulo e da zona norte, o rio é uma barreira, a Marginal são duas. É preciso mais pontos de travessia.

Fotos: Jin Yonezawa

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Entrevista com o supercampeão Henrique Avancini: “Ainda não estou satisfeito”

Publicado em: 3 ago 2011 por Diego Viñas

Um início que nem ele mesmo sabe explicar como foi. O que se sabe é que Henrique Avancini, antes de ser nove vezes campeão brasileiro de Mountain Bike e pedalar por vários terrenos num mundo, ganhou sua primeira bike de seu pai quando tinha oito anos (foto abaixo). Hoje, é integrante da equipe ISD Cycling Team com patrocínio de RDR Italia/GE Celma/Lei de Incentivo ao Esporte/SESI-RJ.

Talento não lhe falta. Muito menos vontade de querer mais, porque Henrique é assim! É daqueles campeões que nunca se contentam com mais um recorde um uma taça. Querem sempre mais. E para relaxar, Henrique nos contou que adora ouvir uma música depois de um treino pesado. O som? Normalmente rock. Atualmente a Banda Resgate. Então, pedal na terra e som na caixa!

Neste mês, o site Bike, Pedal e Cia conversou Avancini, natural de Petrópolis, no Rio de Janeiro, onde considera o melhor lugar do mundo, mesmo tendo passado por mais de 20 países para participar de competição. A seguir, detalhes da vida do filho de Ruy e Jaqueline Avancini, dona do melhor feijão caseiro, segundo Henrique.

1. PEDALANDO PELA VIDA DE HENRIQUE AVANCINI

Bike Pedal e Cia: Qual é o seu ídolo no ciclismo? Tem algum nacional e um internacional?

Henrique Avancini: Não tenho ídolos no ciclismo. Não é por arrogância ou algo parecido. Quando eu era pequeno admirava o ciclista italiano Marco Pantani. Mas a trajetória de vida de Pantani me frustrou profundamente. Por isso acabei não admirando nenhum outro ciclista. Mas por um lado isso foi bom pra mim. Hoje tenho uma mentalidade sobre doping muito concreta. Quero e vou fazer uma carreira limpa até minha última pedalada. Dentre vários motivos, mas principalmente porque se um dia uma criança, jovem ou adulto se espelhar em mim como atleta eu nunca serei uma decepção para ele como Pantani foi pra mim.

BPC:  Tirando o ciclismo, que outro esporte você curte ou pratica?

HA: Devido a dedicação ao ciclismo, acabo não tendo muito tempo para praticar outros esportes, mas gosto de muitos esportes. No período de transição de temporada faço corridas a pé e um pouco de montanhismo.

BPC:  Quando não está pedalando ou treinando, o que faz como lazer?

HA: Gosto de passar algum tempo com a família, amigos, ir ao cinema, tomar um banho de cachoeira, ir à praia ou alguma coisa tranquila. Não sou muito baladeiro e depois das 11 da noite, os meus olhos começam a arder, aí não tem jeito, é hora de dormir…(risos)

BPC: Sua família é praticamente sua equipe. Mas vocês também aproveitam os feriados ou festas de fim de ano? Como é sua relação entre você e sua família além do ciclismo?

HA: Sou muito ligado a minha família e eles a mim. Sempre que estou no Brasil meu pai, minha irmã e minha mãe me ajudam muito mesmo. Somos muito unidos e gosto muito de ficar com minha família em qualquer situação, mesmo que seja um simples bate papo em casa.

BPC: Qual é sua música (banda) favorita?

HA: Gosto muito de música. É minha atividade de recuperação favorita. Sempre que chego de um treino duro, relaxo ouvindo música. Ouço várias bandas, a maioria de rock. Mas ultimamente tenho escutado bastante a Banda Resgate.

BPC: E o prato predileto? Quem cozinha esse prato que você tanto gosta?

HA: Sem dúvida, o feijão da minha mãe, que fica ainda mais gostoso quando passo muito tempo na Europa! Além disso minha namorada faz um bolo de cenoura que me faz “perder a linha”. Mas ela colabora e só faz nas minhas férias…

2. ESCALADA NA CARREIRA

BPC: Quais são as conquistas que você mais considera emblemáticas?

HA: Tenho algumas vitórias que ficaram marcadas na memória. Ter vencido o Campeonato Panamericano duas vezes na categoria junior foi um feito especial, já que nenhum outro atleta conseguiu o feito. Além disso, um resultado especial pra mim foi a nona colocação no primeiro mundial que participei. É a melhor colocação de um brasileiro em mundiais na história, e eu larguei na última fila.

Minha primeira vitória na Elite em uma prova do calendário internacional da UCI fora do Brasil foi especial. Aconteceu na Grécia em 2009. Uma conquista que alcancei  que não foi simples e me orgulho muito, foi a de me tornar o primeiro brasileiro a se tornar oficialmente  profissional do Mountain Bike, quando fui contratado pela equipe ISD Cycling Team em 2009, que desde a época em que fui contratado figura entre as dez principais equipes do mundo na modalidade.

BPC: Você ganhou sua primeira bicicleta de seu pai aos oito anos. Mas em que momento da sua vida você teve certeza que seria ciclista? 

HA: Essa é uma pergunta que realmente não sei responder. A cada dia que foi passando só me lembro de me dedicar mais ao ciclismo e fazer isso por puro prazer. Continuo assim até hoje. Sou feliz por ter como profissão  minha maior paixão .

BPC: E os estudos? Como fez (ou faz) pra conciliar?

HA: Concluí o ensino médio em uma escola bem conceituada. Acho que a educação faz uma grande diferença quando o atleta alcança um certo nível. Fazia o curso de Direito, no qual concluí 5 períodos, porém tive que trancar o curso para me dedicar somente ao ciclismo a partir do momento em que assinei contrato com uma equipe internacional. Um dia pretendo voltar a estudar, e concluir um curso superior.

BPC: Você já viajou para vários países. Qual achou o mais incrível?

HA: O ciclismo me proporcionou conhecer lugares fantásticos. Já competi em 24 países sendo que venci competições em 8 países. Acho muito legal competir na Colômbia, um país simples, mas que tem uma profunda paixão pelo ciclismo. Me lembro muito do primeiro mundial que fiz, que foi na Nova Zelândia em 2006. O lugar é realmente incrível. Gosto muito da Itália. Do modo de vida, culinária, idioma, das pessoas e do amor pelo ciclismo.

Mas de tantos lugares que tenham me encantado por uma coisa ou outra, sinceramente eu volto pra casa sempre sorrindo. Valorizo muito meu país, especialmente a região onde moro (Petrópolis-RJ).

3. E O NOSSO CICLISMO

BPC: Acabamos de assistir ao Tour de France. Você já esteve lá. Como foi sua participação?

HA: Competi no Tour de France duas vezes, em 2009 e 2010, mas foi na versão Mountain Bike e não na versão de ciclismo de estrada, que é bem diferente. A versão do Mountain Bike é uma prova importante, com premiação alta, muito público e com atletas muito fortes do Mountain Bike e do Ciclo Cross (modalidade do ciclismo praticada no inverno e que é muito importante na Europa).

Minhas participações foram boas. Foi a prova mais dura que já fiz e até atletas que fizeram o Cape Epic ou TranAlps pensma assim. Isso porque são 8 dias de corrida, sendo que são sempre provas no formato olímpico (XCO), então o ritmo é absurdamente forte do começo ao fim, e com o passar das etapas, a sensação é realmente de puro sofrimento.

BPC: E quando esteve na França, você chegou a sentir a paixão que os torcedores têm pela modalidade? Como é a energia do ciclismo por lá?

HA:  A França ama o ciclismo. As cidades por onde o Tour passava, ficavam paradas em função da corrida. Os franceses vibram muito com o ciclismo.

BPC: Você acha que o brasileiro ama o ciclismo? O que falta para o ciclismo se popularizar (se é que precisa)?

HA: A questão não é tão simples. Fazendo uma analogia. Quantos campinhos de terra batida com traves tortas você vê por aí? O meio para prática é o início de tudo. O brasileiro ama sim o ciclismo, mas quase sempre essa paixão de adolescência vai apagando com o tempo até que deixa de existir, sobrevivendo em raros casos.

O ciclismo profissional do Brasil vem melhorando aos pouquinhos, mas daí para massificar a cultura da bicicleta não estamos falando de competições, mas sim de cultura pública.

BPC: O que achou da vitória de Cadel Evans no Tour de France? Era quem merecia ou apostava em outro? Por quê?

HA: Falei com alguns amigos que ele venceria. Achei legal, principalmente pelo fato de ter sido um ex-mountain biker. Fiquei feliz também, porque após o Tour li alguns artigos de especialistas em doping e a maioria considerou esses um dos Tours mais limpos dos últimos tempos. Os ciclistas estão mais lentos, chegam visivelmente mais cansados e se você perceber todos tiveram momentos humanos de fraqueza durante alguma etapa.

BPC: Você vai para o Pan em Guadalajara? Como está a preparação para a competição?

HA: Infelizmente não. Acabei não conseguindo fazer uma boa preparação para as seletivas, mas o Brasil estará muito bem representado pelo Rubens Donizete e Edvando de Souza Cruz.

BPC: E a Olimpíada no Brasil em 2016? Acha que conseguiremos fazer grandes eventos de ciclismo no Rio?

HA: Com certeza. Jogos Olímpicos não são simples como Jogos Panamericanos. O planejamento é absurdo e o Rio de Janeiro terá toda a estrutura para sediar os Jogos com louvor.

BPC: Aliás, acontece o Tour do Rio. Como está a estrutura da cidade que você deve conhecer para receber eventos de ciclismo?

HA: Gostaria muito de participar do Tour do Rio, mas infelizmente a data coincidiu com a realização da prova teste dos Jogos Olímpicos em Londres. O Tour do Rio é uma mega competição. Já se tornou a prova mais importante do ciclismo de estrada brasileiro e isso aconteceu graças ao investimento  Governo do Rio. Acredito que a federação de ciclismo do Rio muito em breve será a principal do país, devido ao trabalho e apoio político à entidade, além de ser a federação mais próxima dos Jogos Olímpicos.

4. NÃO TEM PRA NINGUÉM: BRASILEIRO DE MTB

BPC: Você venceu nove vezes. Como conseguiu essa hegemonia nesta competição?

HA: Dedicação e seriedade. É um título que sempre me deixa muito feliz, conquistá-lo nove vezes foi especial, mas ainda não estou satisfeito, quero continuar aumentando essa contagem.

BPC: A cada ano, você se torna mais visado pelo seu desempenho. Acredita que é um atleta a ser batido pelos adversários?

HA: Não sei. Eu me preocupo em bater todos os meus adversários, se isso me faz ser o cara ser batido eu não sei. O nível nacional está muito equilibrado esse ano, e isso vai fazer o mountain bike brasileiro saltar de qualidade. Hoje tenho um pouco de vantagem pela experiência que ganhei nas últimas três temporadas competindo no mountain bike internacional, mas isso trouxe alguns prejuízos também. Poucas vezes tive tempo e condições de me preparar bem para alguma prova importante no Brasil.

BPC: Ano passado não deu. O que aconteceu que no Brasileiro de 2010 você ficou em sexto?

HA: A prova foi numa lama impraticável. Eu vim de uma sequencia pesada de provas na Europa e não tive um bom dia. Perdi e perdi feio. Quem ganhou mereceu o título, pois foi superior em vários aspectos no dia. Acontece, mas vou trabalhar para que demore muito a acontecer novamente.

BPC: O Brasileiro de MTB é uma competição organizada? Qual a sua opinião sobre o evento?

HA: O Brasileiro geralmente é organizado por uma federação estadual. Então muda de ano pra ano. Esse ano, excepcionalmente, o Sampa Bikers liderado por Eduardo Ramires organizou a prova e em minha opinião fez um ótimo trabalho!

BPC: Na sua opinião, quais os cinco principais eventos de ciclismo no Brasil?

HA: A CBC criou a Taça Brasil, delegando a organização para as federações do Paraná, Rio e última etapa será organizada pelo Sampa Bikers do Edu Ramires. E o campeonato tem sido muito bem feito. Além disso, sem dúvida a Copa Internacional é um trabalho incrível de Rogério Bernardes, mas que pode ser melhorado. O Tour do Rio e a Volta de São Paulo são as grandes do ciclismo de estrada. E campeonato brasileiro independente da organização sempre carrega muita importância devido ao peso do título.

 

Confira mais sobre o ciclista Henrique Avancini em seu site oficial.

http://www.avancinimtb.com.br/

Apoio: Gu Energy Gel/BARBEDO/Easy Tubeless/ ESIgrips/G-Skin/Vittoria/Parl Tool/Honey Stinger/ Helio Souza(HE treinamento esportivo).

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“Se você tem o sonho de fazer uma viagem pelo mundo de bike, vale a pena realizá-lo”

Publicado em: 14 jul 2011 por Enzo Bertolini

Há pouco mais de um ano, três amigos de infância partiram de Minas Gerais com uma missão: buscar Nova Origem. A ideia do projeto surgiu de uma necessidade de mudança do estilo de vida e do sonho de infância de fazer uma grande viagem.

Depois de quatro meses de planejamento, compra de equipamentos e despedidas familiares, os três partiram para dar a volta ao mundo pedalando. Passaram por Minas Gerais, São Paulo e Mato Grosso do Sul, cruzaram a Bolívia e agora se encontram no Peru.

Já lidaram com perrengues com as bikes, perderam uma parte do equipamento, mas também encontraram pessoas que os ajudaram e os acolheram e tiveram a oportunidade de ter um contato mais próximo com culturas diferentes.

Conheça um pouco da história de Kico Zaninetti, Caseh Werner e Tiago Batalha e do projeto Nova Origem.

Bike Pedal e Cia – Quando e como surgiu a ideia do projeto Nova Origem? E porque esse nome?
Nova Origem - A ideia do projeto Nova Origem surgiu de uma necessidade de mudança no nosso estilo de vida. Somos amigos de infância e desde adolescentes compartimos o sonho de fazer uma grande viagem e viver uma vida alternativa, diferente dessa rotina de trabalhar, acumular e quem sabe fazer uma viagem no fim de semana. O livro do cicloturista Antonio Olinto “No Guidão da Liberdade” nos inspirou a realizar essa volta ao mundo, em bicicleta. Nosso projeto é uma busca por uma vida sustentável, e acreditamos que para viver assim, precisamos voltar as nossas origens, nos conectar com a terra, com a natureza. Deixar nossos trabalhos, família, amigos e toda uma vida construída para trás, para buscar nossa origem é como ter nascido de novo, é viver uma Nova Origem.

 


BPC – Como tem sido a receptividade das pessoas com os conceitos e palestras apresentados por vocês?

NO - Fizemos um trabalho muito forte de palestras no Brasil, e a receptividade foi muito boa. Não é todo dia que se veem três pessoas juntas, com uma bicicleta cheia pedalando por ai. As crianças ficam muito curiosas e escutam nossas histórias. Aproveitamos essa entrada para passar uma mensagem de preservação à natureza, amizade e busca pelo próprio sonho. Na Bolívia fizemos um plantio em uma escola e não realizamos palestras. Não estávamos confiantes com o nosso espanhol. No Peru realizamos recentemente um trabalho voluntário para ajudar na manutenção do viveiro de mudas de Campo Santo, na cidade de Yungay, que fica aos pés do Huascarán, maior montanha tropical do mundo.

Curiosidade: Campo Santo tem esse nome, pois em 1970 teve um terremoto e o deslizamento de neve e terra que desceu do Huascarán, soterrou a cidade de Yungay que era justamente onde hoje é o Campo Santo, um imenso jardim e memorial para os cerca 25 mil mortos do acidente.

BPC - Quanto tempo vocês levaram planejando a viagem, roteiro e projeto?
NO -
Ficamos cerca de 4 meses planejando. O planejamento envolveu principalmente a escolha e compra dos equipamentos, busca de parceiros e patrocínio (que até hoje não saiu).

BPC - Qual foi a receptividade das famílias e amigos à ideia?
NO -
A receptividade das famílias foi péssima. Difícil para eles entenderem um sonho tão radical e se conformarem com os filhos no mundo, muitas vezes sem comunicação, sem saber onde vão dormir, pedalando por estradas movimentadas. Não é fácil para eles a distância, nem para nós e temos que aprender com essa condição.

BPC - Do que e de quem vocês tiveram que abrir mão para dar andamento ao projeto?
NO -
Abrimos mão de tudo: do nosso trabalho, dos chefes, da casa mobiliada, famílias, amigos e namoradas. É difícil dizer por que, pois era toda uma vida construída, fizemos faculdade, nos preparamos para o mercado de trabalho, estávamos bem em nossas carreiras e tivemos que abrir mão disso tudo para entrar de cabeça na Nova Origem.

BPC - Imagino que não ter namorada/noiva/esposa foi pré-requisito, certo?
NO -
Não tivemos pré-requisitos para realizar essa viagem, mas fazer uma viagem longa com compromisso é muito difícil. Tiago era o único que tinha um compromisso antes de começar e por decisão própria explicou a situação e terminou o relacionamento (para ira da namorada).

BPC - Qual foi o custo projetado por vocês para que conseguissem passar pelos cinco continentes? E como esse dinheiro foi arrecadado?
NO -
É impossível calcular o custo de uma viagem como essa. No início tentamos, mas quando iniciamos a viagem vimos que estava totalmente furado, gastamos muito menos do que o previsto. Mas apesar disso, só arrecadamos algumas poucas doações e nenhum patrocínio até hoje, então o dinheiro que temos já está escasso e o que tem nos sustentado são fotos que vendemos pelo caminho da nossa viagem e trabalhos de desenvolvimento web que estamos realizando.

BPC - Vocês têm algum suporte financeiro?
NO -
Temos um parceiro novo, que é a Mr Fly Moda Sustentável, que faz camisas de garrafa pet e as compras que forem realizadas e o comprador indicar a Nova Origem, ganhamos uma comissão. Mas, até agora não tivemos retorno com isso. Estamos com outra parceria em negociação, mas ainda não saiu do papel. Quem quiser nos ajudar e colaborar com patrocínio ou doação pode acessar a página www.novaorigem.com.br/patrocinio

BPC - Há uma equipe logística e de apoio para vocês aqui no Brasil ou no exterior?
NO -
Temos muitos amigos que sabemos que podemos contar, mas não temos nenhuma equipe de apoio ou logística.

BPC - Como funcionará o pedido de vistos quando vocês saírem dos países que integram o Mercosul?
NO - O único país que pede visto consular é os Estados Unidos, mas mesmo assim já estão estudando um acordo com o Brasil de não precisar mais desse visto. O resto é chegar com a cara e coragem e solicitar o visto.

BPC - A questão linguística é uma barreira para vocês?
NO -
Não chega a ser uma barreira, é um desafio. O espanhol já foi superado, estamos fluentes. O inglês não temos usado muito, mas quando foi necessário, foi tranquilo. A dificuldade maior será nos países orientais, onde o idioma é totalmente diferente.

BPC - Vocês saíram do Brasil, passaram pela Bolívia e agora estão no Peru. Qual a melhor parte da viagem até o momento?
NO -
Difícil dizer qual foi a melhor parte, mas vamos citar uma especial de cada país. No Brasil vivemos uma experiência fantástica na Chapada dos Veadeiros, berço das águas com suas inúmeras cachoeiras e lá fizemos amizades que levaremos para o resto da vida. Na Bolívia tivemos nosso primeiro contato com neve em um montanhismo que fizemos na montanha Huayna Potosi, onde subimos há 6088m de altitude em uma aventura muito difícil e emocionante para todos nós. E para finalizar, no Peru conhecemos Machu Picchu e pedalamos pelo Vale Sagrado junto com o amigo Antônio Olinto e sua esposa Rafa. Olinto foi nosso inspirador para fazer essa viagem e pedalar alguns dias com ele foi uma escola de motivação para nós.

BPC - Qual são os modelos de bicicleta e pneus que vocês estão utilizando e porque as/os escolheram? 
NO - Cara, esse lance de modelo de bike e peças é complicado. Estamos usando as mountain bikes que sempre tivemos. Kico usa uma Scott, Caseh uma Giant e Tiago uma GTS, relação Shimano Alivio, Deore e XT. Em relação aos pneus utilizamos o misto, que é liso no meio e tem umas travas na borda, até agora foi o melhor para nós. Uma curiosidade é que o Caseh é o único que está com relação de 27 marchas (os outros usam 24) e tá passando perrengue com a sua corrente, pois é mais fina e menos resistente que as outras. Esse é um caso em que um equipamento teoricamente melhor, não é o ideal para cicloturismo, onde a resistência das peças é mais importante que o peso.

BPC - Já passaram por algum problema mecânico no trajeto?
NO -
Direto! Pneu furado, passador quebrado, corrente arrebentada, bagageiro quebrado, raio quebrado. Acho que só o quadro não quebrou até hoje (risos).

BPC - O que vocês estão levando na viagem e qual o peso das bagagens?
NO -
Nossa bagagem é nossa casa, então levamos tudo, roupas, ferramentas, peças de reposição, fogareiro, panela, comida, barraca etc. Cada bike está pesando mais ou menos 50Kg somando o peso da bicicleta e a bagagem.

BPC - O planejamento do trajeto vislumbrou questões climáticas? Vocês pensaram nas estações do ano para que sempre pegassem verão? E a temporada de furacões foi prevista na passagem pela América do Norte?
NO -
Nosso planejamento não tem muito disso não e o que está acontecendo é que estamos tendo bastante sorte com o clima. Até hoje pegamos pouquíssima chuva e, apesar de frio que pegamos na Cordilheira Blanca no Peru, estamos passando um inverno bem confortável nos Andes. Nosso planejamento agora é chegar em um ano nos EUA, que é verão lá, mas tudo muda no meio do caminho, então o que planejamos é nossa cabeça para sermos adaptáveis e resolver os problemas quando eles acontecerem.

BPC - O que vocês falariam para os amantes do pedal que sonham em fazer uma trip como a de vocês?
NO - Viajar em bike é uma experiência única. Você está no mundo, na estrada, sofrendo pra subir um morro e logo em seguida a recompensa de sentir o vento na cara na descida, cumprimentando as pessoas pelo caminho, pedindo um copo d’água, um prato de comida. Viajando de bicicleta você conhece detalhadamente o caminho, conhece pessoas, seus costumes. Nossa vida mudou muito nesse último ano, aprendemos muito sobre a vida, a dar valor ao simples. Se você tem o sonho de fazer uma viagem pelo mundo de bike, vale a pena realizá-lo, ou pelo menos tentar, acho que ninguém gostaria de morrer com a sensação de não ter tentado viver suas verdades.

Os três não têm a disposição nenhum patrocínio e financiam a viagem com recursos próprios, que, obviamente, não irão durar até o final. Se você gostou do projeto e puder contribuir com uma doação, comprando as camisetas Nova Origem ou patrocinando o projeto, entre em contato com eles.

A história da viagem pode ser acompanhada em diversos lugares e oportunidade não vai faltar para acompanhar. Além do site Nova Origem, o projeto possui canais no Facebook, Twitter e Flickr.

Fotos: Nova Origem

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Entrevista do mês: Marcelo Rudini e suas dicas de mecânica

Publicado em: 30 jun 2011 por Diego Viñas

Na entrevista deste mês, conversamos com Marcelo Rudini, ciclista e responsável pelo site Onde Pedalar. Para o Bike Pedal e Cia, Marcelo deu dicas sobre mecânica e como se safar das situações mais complicadas no momento de uma pedalada. Desde os conceitos mais básicos até as alternativas mais bizarras para resolver os problemas da sua bicicleta, essa entrevista é dedicada a todo o público de amantes do ciclismo, desde iniciantes a profissionais. Então, boas pedaladas e bom bate papo.

Bike Pedal e Cia: O que um ciclista precisa saber sobre mecânica? Quais os aspectos básicos para saber mexer na sua bike?

Marcelo Rudini: Basicamente ele precisa saber usar o canivete de bike que o povo leva com chave de corrente. Pneu furado e corrente arrebentada acabam com o passeio. Marcha que não entra atormenta ou faz o cara empurrar na subida. Freio desregulado ou gasto, folga no cubo e aro em fim de vida comprometem diretamente a segundaça dependendo da velocidade em que o cara pedalar.

BPC: Então, qual o primeiro passo para garantir isso?

MR: Para sair tranquilo para um trilha é legal primeiro saber inspecionar a bike em casa para evitar problemas: checar o aro, verificar folga de cubo, ajustar o freio ou trocar sapatas e verificar desgaste de corrente são os principais. Depois é estar preparado para emendar uma corrente caso quebre (correntes novas tbm quebram) e saber fazer ajuste fino de câmbio pois dependendo da umidade o cabo corre mais ou menos no conduite e o câmbio fica fora.

BPC: E na hora de voltar pra casa?

MR: O cara precisa saber como limpar a bike para evitar desgaste antes do tempo ou não provocar problemas. Passar em máquina de alta pressão é um dos erros, ela limpa, mas tbm empurra poeira onde não deve e dilui graxa em lugarem fechados.

BPC: Quais os principais problemas de um ciclista? Vamos fazer um Top 3?

MR: Furar pneu, quebrar corrente que pode acontecer se uma pedrinha for mordida pela coroa e acabar freio em dias de chuva (v-brake) ou acabar pastilha de freio a disco porque o pistão não retorna porque esta sujo.

BPC: E como resolver esses três problemas?

MR: Para pneu e câmara é ter um câmara extra pra facilitar a vida e em viagens ter um kit de reparo, pois pode furar mais de uma vez. Para evitar, é bom estar com o pneu dentro da vida útil. Pneu que mais fura é pneu velho. Para a corrente o ciclistas deve ter uma chave de corrente para refazer a emenda e saber como faze-lo. Tem corrente que só emenda com pino guia. Hoje o mais indicado é ter um link de corrente extra. A chave limpa os elos e o link é colocado muito mais fácil do que repor o pino de uma corrente, além de ser mais seguro. Quanto a freio, o melho é o preventivo, sair come le zerado de casa. Mas ter um par de sapatas extra é sempre bom e no caso do disco uma pastilha e saber trocar. Mas ainda no caso do disco é fazer manutenção preventiva de limpeza dos pistões, esse é o principal.

BPC: E as gambiarras? Durante uma pedalada no meio do mato, quais dicas vc daria para  voltar com segurança?

MR: Olha, eu ja tive porca de pedivela perdido e tive que voltar pedalando e socando o pedivela pra dentro com o calcanhar. Eram duas pedaladas pra um totó pra fazer ele ficar no lugar. Depois tive que amarrar o pedivela com arame pra seguir. Isso porque ele era vazado, se fosse do outro nem isso daria.
Já vi pneu cortado e o remendei com o kit de reparo que vem com um manchão grande. Não tive que encher pneu com folha porque sempre levo o kit de reparo, mas ja’ aconteceu de furar 3 vezes a mesma câmara e aí tive que remendar na pista. Saber o mínimo sobre a bike evita ficar na mão ou ter que pedir socorro. Eu só tive um caso onde tive que apelar, foi quando meu aro abriu feito lata de sardinha por desgaste. Mas nessa época eu não sabia como inspecionar o aro pra saber a hora de trocar.

BPC:  Vamos economizar: quais as dicas para pedalar sem gastar muito?

MR: O principal é comprar o equipamento certo para o seu perfil de pedal e manter a bike limpa e lubrificada. Em termos de equipamento, quanto mais caro é o conjunto, menos ele dura. Equipamento voltado para esportista é caro e preciso, mas dura pouco. Se o objetivo é passeio, é melhor optar pelos mais parrudos que vão durar anos. Quanto ao desgaste natural transmissão, por eexemplo, é manter limpo e lubrificado. A corrente é a primeira a ir e para não levar o cassete antes do tempo e aumentar os gastos ela precisa ser trocada na hora certa. Inspecionar o cubo para pegar folgas o mais cedo possível, ou até abri-lo para trocar a graxa, evita perder o cubo antes da hora.
Em resumo, conhecer os pontos de desgaste da bike e agir preventivamente em casa evita muito gasto.

BPC: Pra finalizar, o site Onde Pedalar dá essas dicas agora através de DVD. Conte sobre esse trabalho.

MR: Bike em dia dá mais prazer em pedalar. E quanto maior for a quilometragem pretendida, mais o ciclista precisa saber para que o prazer da trilha ou viagem não seja interrompido por completo. Que será interrompido uma vez por pneu furado ou corrente quebrada, isso vai, mas sabendo o que fazer isso vira história pra contar no blog que vai mostrar tbm o fim da viagem. Se precisar pedir socorro o humor vai embora. Os DVDs do Ondepedalar.com tem o objetivo justamente de garantir o básico para o ciclista ir mais longe. Ele é formatado para ciclistas e colocado em uma linguagem que mesmo o pessoal que não sabe os componentes da sua bike pelo nome e sobrenome como alguns frequentadores de forum saiba o que fazer.
A lista do que tem em cada DVD vc encontra na apresentação dos mesmos na lojinha do OP: www.montarbicicleta.net.

Mais informações pelo www.youtube.com/ondepedalar.

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“Não sou cicloativista, sou um ciclista de paixão”

Publicado em: 24 jun 2011 por Enzo Bertolini

Ele já viajou por muitos lugares no Brasil pedalando. Ele trabalha para que os ciclistas tenham o seu espaço de direito no trânsito brasileiro. Ele tem opiniões contundentes sobre o papel do Estado perante os cidadãos e suas relações com o espaço público. Nesta entrevista concecida ao Bike Pedal e Cia, André Pasqualini, conhecido também como Bicicreteiro, fala sobre o projeto Biomas e o que o motivou a realizar tal viagem, como surgiu o Bicicreteiro, o nascimento do Instituto Ciclo BR e seu papel nele e deixa um recado aos leitores do BPC.

Bike Pedal e Cia – O que foi, quando e como surgiu a ideia do projeto Biomas?
André Pasqualini - A partir de Julho de 2010 passei a viver os momentos mais complicados da minha vida, tanto no pessoal como no profissional. Encarei um divórcio extremamente doloroso para ambos, passei por momentos terríveis, não conseguia mais trabalhar, caí em depressão, por muito pouco não cometi uma besteira.

Tinha que fazer algo e uma das opções foi cair na estrada. Sempre tive vontade de continuar a viagem que eu realizei, beirando o Rio Tietê, mas rumo ao Pantanal. No Google Maps comecei a traçar a rota e percebi que se conseguisse cruzar o Pantanal, sairia perto de Cuiabá. Vi que 400 kms ao norte já estaria na Floresta Amazônica e pensei “Poxa, dois biomas na mesma viagem!” Daí segui traçando até chegar em São Paulo.Como a particularidade da viagem seria pedal por 4 dos 7 biomas brasileiros, o nome surgiu naturalmente.

Fiz o plano em outubro, antes de realizar a Viagem do Vale Europeu com a Renata Falzoni (webrepórter da ESPN), pensei até em seguir de lá, mas como eu ainda tinha esperanças de retomar meu casamento, tentei mais uma vez, como nao deu certo, decidi cair na estrada.

BPC – Como foi a receptividade das pessoas com os conceitos apresentados por você durante o percurso?
AP -
Viajar de bicicleta é algo maravilhoso, não tinha intenção de, com a viagem, levar essa ou aquela mensagem. Meu objetivo era me reencontrar, avaliar a minha vida e conhecer pessoas e suasexperiências. Era mágico, conhecia alguém, falava das motivações da minha viagem, das minhas experiências e rapidamente as pessoas abriam seus corações e contavam suas vidas. Tem uma história melhor do que a outra, revi vários dos meus conceitos e com certeza, me tornei outrapessoa depois da viagem.

BPC – No contato com o dia a dia dos cidadãos de diferentes cidades e regiões, o que você mais notou em relação às diferenças com a realidade que você vivia em São Paulo?
AP –
São diferenças e semelhanças. O Brasil é um continente com diferenças culturais enormes, principalmente nos locais mais remotos e com pouco acesso a informação.

Nas capitais eu me sentia como em São Paulo, o pessoal dos centros urbanos são influenciados demais por nós, nas coisas boas e, principalmente, nas ruins. Nosso modelo de mobilidade urbana étoscamente adotado na maioria dos centros urbanos do Brasil. O lado bom é que esta começando a nascer um movimento social com o objetivo de valorizar o espaço público, claramente motivado pelos movimentosque nascem em São Paulo.

BPC – Quanto tempo você levou planejando a viagem, roteiro e projeto?
AP -
O roteiro planejei em apenas um dia, meses antes da viagem. Do momento da decisão até a viagem em si, levei uma semana apenas. Mas contei muito com minha experiêcia, com o fato de já possuir muitos equipamentos, mesmo assim, até Bauru, já no meio da viagem, ainda estava comprando equipamentos.

BPC – Qual foi a receptividade das famílias e amigos à ideia?
AP -
Meus amigos da onça adoraram, pois sabiam que iriam se divertir com meus relatos e as presepadas me acompanhando pelo blog. Pais e irmão já estão acostumados, tiveram a preocupação natural, mas eles sabem que eu saberia lidar bem com as adversidades. Problema mesmo foi ficar longe do meu filho, que na época tinha quatro anos apenas. Segundo a mãe ele nem perguntava por mim. Acredito que isso ocorreu  como uma forma de se proteger da separação, até hoje ele ainda não entende direito, mas eu sofri demais, uma dor e sofrimento que não desejo para ninguém.

BPC – Qual foi o custo projetado para que você realizasse o projeto? E como esse recurso foi arrecadado?
AP -
Saí de São Paulo com menos de R$ 1 mil, isso porque eu vendi uma bike e recebi ajuda de um amigo para comprar alguns equipamentos. Mas durante a viajem várias pessoas colaboraram e com esse dinheiro eu consegui fazer toda a viagem. Tive alguns problemas mecânicos e principalmente com minha máquina fotográfica que pifou quando entrei no Pantanal. Um amigo deu muita ajuda, principalmente para compraresses equipamentos. Se juntar todo o dinheiro que recebi, deu uns R$ 6 mil durante os 3 meses e meio. Sem contar a ajuda na estrada, ganhei desde comida, hospedagem e até dinheiro, isso sem mendingar.Nunca pedia nada, mas além de conversar com todo mundo que me abordava, aceitava tudo que me ofereciam.

BPC – Você teve algum apoio logístico em São Paulo durante a viagem?
AP -
Mais a ajuda financeira mesmo, nem precisava de tanto apoio logistico, durante a viagem, pelo blog, conversava com a galera e recebia várias dicas.

BPC – Qual foi o modelo de bicicleta que você utilizou e porque a escolheu?
AP -
Usei uma Two Niner aro 29 da Caloi. Não tinha nenhuma MTB e como tenho parceria com a Caloi, pedi uma bicicleta. Iria optar naturalmente pela Elite 27, uma excelente bicicleta que eu já havia usado em uma viagem anos atrás. Precisava de uma MTB, pois, apesar de pedalar diversas vezes no asfalto, iria enfiar a bicicleta em lugares bem complicados. Não conhecia a Two Niner, já havia ouvido falar das 29′, mas nem sabia que a Caloi tinha uma, então resolvi testá-la.

Foi uma excelente idéia, além de ser uma bicicleta extremamente confiável, resistente a toda carga que levei e a todos os terrenos, a melhor particularidade era a possibilidade de transformar a MTB numa estradeira. Além dos pneus MTB de 29, levei dois pneus de speed da Levorin, que a Falzoni me deu, pneus 700 28xC. Quando iria percorrer longos trechos asfaltados eu colocava esses pneus e quando iriaencarar a terra, jogava os MTBs. Sem falar que o desempenho da 29 em relação a velocidade é infinitamente superior aos aros 26, não importa o terreno. As 26 são melhores para manobras nas trilhas, mas como eu precisava mais de desempenho do que agilidade, considero ela a bicicleta perfeita para cicloturismo nesse estilo mais selvagem, o que eu gosto.

BPC – Passou por algum problema mecânico no trajeto?
AP -
Vários, meu bagageiro dianteiro foi uma gambiarra que meu amigo Juliano Pappalardo fez em duas horas, só para eu poder viajar, prendíamos com abraçadeiras metálicas, mas um dia, no meio da viagemelas quebraram quando passava por uma área de Amazônia Legal no meio do Mato Grosso, sendo que a cidade mais próxima estava a mais de 100 quilômetros. Apesar de vários contratempos, o melhor do cicloturismo é a independência e a possibilidade de você se virar para chegar ao seu destino, portanto contratempos são esperados e superá-los só engrandece a viagem.

BPC – O que você levou na viagem e qual era o peso das bagagens?
AP -
Eu tinha quatro alforges e muitas coisas. Nos dianteiros eu deixei roupas e um pouco de comida, até porque o maior peso tem que ir atrás. Nos traseiros tinha comidas mais pesadas, ferramentas, tralhas de camping. Levei 3 pneus reservas de MTB que ficavam dobrados nos alforges, mais uma rede pequena, que cabe numa pochete, um saco de dormir que usava como cobertor. Tem várias coisas que eu levei ou ganhei no meio do caminho que também foram úteis em algum momento. A única coisa que me arrependi de levar foi a barraca porque que usei poucas vezes.

BPC – O planejamento do trajeto vislumbrou questões climáticas?AP - Quando vi que passaria pelo meio do Mato Grosso, em uma área da Amazônia legal, claro que fui com o intuito de conferir de perto os problemas das queimadas no estado e porque elas ocorrem. Descobri que a principal motivação nem é para madeireiras, mas sim porque grandes fazendas de soja e cana avançam sobre áreas que são destinadas a gado, então como Mato Grosso tem uma baixa densidade demográfica, o próprio governo doa ou vende terras a preços ridículos a pecuaristas do sul.

Eles chegam no local onde só tem floresta e como não sabem tirar dinheiro da Floresta de outra maneira, promovem queimadas de forma criminosa e como o estado não vai apurar quem causou a queimada, eles alegam que foi por causas naturais já que “não têm o que fazer” espalham o gado entre aquelas áreas de floresta esturricadas pelos incêndios. Ocorre que queimadas naturais ocorrem em Cerrado, mas nunca em Floresta Amazônica, tanto é que alguns biólogos, quando vão nessas áreas queimadas, encontram pneus no meio de onde existia uma floresta. Como eles foram parar ali?

Pior é que há algumas pessoas que estão comprando grandes áreas de florestas e fazendo manejo sustentável, derrubam algumas árvores ou usam as que caem naturalmente. E retiram da floresta seus frutos como castanhas, açaí. O que não faltam são opções como usar a floresta de forma rentável e sustentável, mas pecuaristas e madereiros, infelizmente, só sabem fazer isso.

BPC – O que você falaria para os amantes do pedal que sonham em fazer uma trip como a que você fez?
AP -
Antes de fazer essa viagem já devo ter realizado mais de 100 viagens de bicicleta, seja viagens de um dia como de 15. Já fiz pedais só em terra, só em asfalto e em ambos os terrenos. Realizei essa viagem, pois tinha certeza que conseguiria sem muita preparação e só com base na minha experiência. Claro que é possível alguém que nunca pedalou, cair na estrada e fazer uma viagem como essa, mas é muito importante o ciclista se conhecer, se colocar em situações complicadas, mas com certo controle, antes de se arriscar numa grande aventura. Vá devagar, depois da nossa primeira cicloviagem percebemos que não existemlimites, basta viajar um dia por vez que o ciclista vai longe.

BPC – Você pretende escrever algum livro sobre o projeto?
AP -
Estou escrevendo, está complicado e ficando bem grande, já tinha me dado um prazo de terminar em maio, depois em junho, agora se finalizar em julho fico feliz. Depois que terminar de escrever ainda teremosmais uns dois meses para editarmos, espero que até o final do ano ele já esteja a disposição da galera. Quem me acompanhou pelo blog durante toda minha viagem, além de relembrar tudo aquilo que vivi, vai ficar sabendo de detalhes que não tive condições de colocar no blog. Espero que o pessoal curta.

BPC – Qual será sua próxima jornada?
AP -
Quero que minha próxima grande viagem seja pedalar pela Transoceânica, rodovia que começa em Rio Branco, no Acre, passa por 800 quilômetros de Floresta Amazônica, cruza a Cordilheira dos Andes e vai até Cuzco (Peru). Não sei exatamente quando farei essa viagem, mas será logo após terminar o livro, até mesmo como uma forma de promovê-lo.

BPC – Você é conhecido no mundo virtual pelo blog O Bicicreteiro. Porque esse nome?
AP –
Depois que o Instituto CicloBR virou uma ong, eu precisava ter um espaço na net para poder expor minha opiniões sem vinculá-las ao instituto, e na busca por um nome, resolvi fazer algo que, de certa forma,demonstrasse o quanto fico incomodado com a posição de alguns ciclistas que cometem atos preconceituosos aos ciclistas mais humildes, que alimentassem algo na linha do que ocorre entre os “motoqueiros e motociclistas”, algo que considero enojante. Até porque, na grande maioria das vezes, esses atos de preconceito, indiretamente prejudicavam os mais humildes.

Quando um ciclista vem a público dizer que usa roupas de ciclista, capacete, bicicleta boa para ser mais respeitado pelos motoristas, indiretamente ele pode instigar os motoristas a tratarem com descaso os mais humildes, que as vezes nem tem condições de sequer ter uma bicicleta decente, quanto mais um bom equipamento. Sem falar que esse tipo de ciclista não tem voz, sequer entre nós. Era comum nas conversas um ciclista virar para mim, apontando um ciclista humilde e dizer “Mas aquele cara é um bicicreteiro, eu sou ciclista”. Ah é? Se ninguém quer ser “Bicicreteiro” eu serei e com orgulho.

Posso dizer que depois que tomei essa atitude, esse tipo de preconceito diminuiu, pelo menos na minha frente ninguém mais se refere pejorativamente aos ciclistas humildes como bicicreteiro (risos). Além do mais, o termo “Bicicreteiro” tem essa conotação pejorativa apenas nas grandes cidades. Era comum pessoas se referirem a mim, durante minhas viagens como “mas você também é um bicicreteiro”, como alguém que entendesse muito de bicicleta. Foi sim uma provocação, minha amiga Falzoni ficava com medo de que eu instigasse uma luta de classe entre os ciclistas, imaginava que isso poderia ocorrer, mas eu sempre tive o cuidado para não alimentar isso e fico feliz pelo fato que, de alguma forma, levantei esse debate, pois no fundo eu quero ver o que já vi em muitas bicicletadas, um cara de uma bike de R$ 3 milconversando com o Tio da Latinha, um senhor que tem um caixote na bike e vive recolhendo latinhas nas ruas.

BPC – Qual o seu papel hoje como cicloativista?
AP -
Fui convencido pelo meu amigo Thiago Benicchio, atualmente diretor da Ciclocidade, que esse termo não é bom. Não sou cicloativista, sou um ciclista de paixão, sou uma pessoa que, cada vez mais quer seespecializar em mobilidade urbana e principalmente uma pessoa que luta por uma cidade mais justa para todos, inclusive para aqueles que só se deslocam de carro.

Por decisão pessoal, preferi me afastar da linha de frente, das manifestações e trabalhar também em prol da bicicleta de uma forma diferente, explorando menos minha capacidade de mobilização e mais o conhecimento que adquiri ao longo desses anos.

Primeiro porque hoje já existe a tão sonhada “Massa Crítica”, eu ajudando ou não, tenho certeza que há uma galera que faz as coisas acontecerem sozinhas. Então quero com meus artigos, de alguma formalevar informação aos ciclistas, para que eles tenham mais argumentos na hora de debaterem, seja em matérias para TV, ou mesmo nos papos de boteco, em sua casa, no convencimento de sua família. E também usar esse conhecimento e essa boa rede pessoal que acabei criando nessesanos para fazer acontecer coisas concretas para os ciclistas, viabilizar uma ciclovia, um plano cicloviário.  Atuo muito junto a órgãos da Prefeitura e do Governo do Estado, auxiliando em projetosa favor da bicicleta e os resultados estão aparecendo.

BPC – Você possui visões bem firmes sobre o comportamento que o ciclista deve ter no trânsito de São Paulo, incluindo pedalar nas calçadas se necessário. O que te motivou a isso?
AP -
Bem, minhas opiniões são embasadas nesses meus estudos. São tantos anos estudando que me considero um especialista no comportamento dos ciclistas. Com base nos meus estudos e na minha experiência, a maior parte das infrações de trânsito que os ciclistas cometem, são motivadas basicamente porque o Estado, na hora de realizar um planejamento viário ignora a existência dos ciclistas. Quando alguma pessoa comete uma infração motivada pelo medo de morrer, não podemos condenar essa pessoa, principalmente se aquela infração não coloca em risco, seja o direito ou a integridade física de outra pessoa.

Por isso que não quero perder tempo tentando resolver o efeito e vou atuar direto na causa. Procuro dar minhas opiniões para que outros ciclistas não se desgastem com isso também. Quempedala sabe que dentro do ciclismo há várias lendas e tendências, algumas considero equivocadas, portanto eu procuro sempre despertar o debate, até para que aquelas pessoas que estejam fechadas em um dogma, percebam que há outras pessoas que pensam diferente e, desta maneira, engrandecer o debate.

BPC – Como surgiu o Instituto CicloBR e qual o papel da entidade no meio ciclístico?
AP -
Criei o site do CicloBR em 2001, com o objetivo de ser um espaço para divulgar as viagens de bicicleta que realizava com um amigo. Os anos se passaram e passei a usar o site como um portal de notícias, não domundo da bicicleta como esporte, mas dela como meio de transportes e também como um fórum de debate sobre cicloturismo. Do site acabou nascendo uma rede de ciclistas e naturalmente ele deixou de ser meu e passou a ser dos ciclistas. Assim, reunimos uma galera e fundamos o Instituto CicloBR que tem como objetivo viabilizar projetos que ajudem que mais ciclistas pedalarem. Hoje o instituto é responsávelpor alguns projetos, esta na luta para viabilizar a Rota Marcia Prado, que liga São Paulo ao litoral, e diversas outras lutas. Tenho muito orgulho de ter participado da criação da ong do CicloBR e tenho certeza queela será muito útil para os ciclistas do Brasil.

BPC – Qual será o próximo evento organizado por você e pelo instituto?
AP – No momento estou trabalhando (pelo CicloBR) na organização de um Seminário Técnico sobre melhoramentos cicloviários para a cidade de São Paulo, que será realizado entre os dias 7 e 9 de julho de 2011, durante a Semana da Bicicleta. A ideia é ilustrar alguns problemas bem pontuais, que os ciclistas enfrentam em São Paulo e convidar técnicos de diversas áreas para debatermos quais as melhores soluções que podemos tomar. Creio que até o final desse mês já tenhamos definidos todos os paineis que iremos debater nesse seminário.

BPC – Deixe um recado para os leitores do Bike Pedal e Cia.
AP -
Existe apenas dois itens obrigatórios para pedalar. A bicicleta e o ciclista, o resto é acessório. Andar de bicicleta é mais simples do que parece e quanto mais complicamos, mais desestimulamos aquelaspessoas que querem pedalar e que por algum motivo ainda não o fizeram. Portanto, vamos começar a criar dificuldades apenas depois que a pessoa estiver contaminada com o vírus da bike, pois aí não tem mais volta.

Abraços e boas pedaladas.

Fotos: André Pasqualini/O Bicicreteiro

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“A bicicleta entrou na minha vida como um grito”

Publicado em: 2 jun 2011 por Enzo Bertolini

Natural de Aracaju (SE), Aline Cavalcante tem 25 anos e está há três em São Paulo. Há dois anos e meio começou a pedalar e em pouco tempo adotou a bicicleta como meio de transporte. Aline é cicloativista e quase sempre pode ser encontrada na bicicletada, em reuniões sobre mobilidade urbana, em protestos na avenida Paulista e nas reuniões das Pedalinas, grupo de bike formado apenas por mulheres.

Dona de três bicicletas que usa de acordo com suas necessidades em São Paulo, é a mais nova moradora do tradicional edifício Copan, símbolo de uma época perdida da cidade. Em uma bate papo descontraído e cheio de assunto, Aline demonstra sua paixão enlouquecida pela bicicleta e conta como, por causa dela, fez muitos amigos.

Aline também dá opiniões contundentes sobre a mobilidade urbana em São Paulo, os desafios de usar a bicicleta em uma cidade desenvolvida para o uso do carro e o que precisa ser feito para que os ciclistas sejam, de fato, respeitados. Com vocês @Pedaline:

Bike Pedal e Cia – Como começou tua história com a bicicleta?
Aline Cavalcante - Eu começei a pedalar em São Paulo como meio de transporte há uns 2 anos e meio. Eu morava em Perdizes e estudava na Consolação e pegava um ônibus que demora de uma a duas horas e meia todo dia. Era um inferno, mesmo com o corredor de ônibus, tinha muito barulho e poluição. Eu fiquei seis meses nessa vida e estava na dúvida se eu trazia meu carro lá de Aracaju (SE). Eu sempre falava pra minha mãe: “ainda não, eu ainda não sei dirigir aqui em São Paulo, não conheço a cidade direito e tal…”. E eu gostava de transporte público em geral, eu acho super eficiente no centro expandido, tem muito ônibus, o problema é o trânsito, o excesso de carros, mas eu acho que é um transporte de qualidade, principalmente o metrô.

Depois de seis meses pegando a mesma linha de ônibis todos os dias eu já estava com mal humor, chegava na aula irritada, e sempre atrasada. Um dia eu li sobre o UseBike, aquele projeto de aluguel de bicicleta e resolvi alugar uma no final de semana. Eu lembro que eu fiz um caminho maluco por cima do Minhocão – estava fechado para carros -, passei por Santa Cecília, Perdizes, Pacaembu, fiquei o domingo inteiro pedalando. Conheci feirinhas, lugares diferentes e adorei!

Durante a semana inteira eu ficava pensando que eu queria pedalar mais no próximo final de semana. Nesse meio tempo eu começei a ver muita bicicleta na rua. Eu gostei tanto da sensação de pedalar em São Paulo que eu fiquei condicionada. Chegava sábado e domingo eu queria pedalar, porque durante a semana eu não tinha coragem. Eu começei a descobrir que eu podia alugar a bicicleta e ir no Shopping Frei Caneca, fora outros lugares. Como de sábado eu não podia pegar o Minhocão porque era aberto para carro, eu passei a conhecer novos caminhos e fiquei impressionada que da minha casa até a minha faculdade era muito perto, 10-15 minutos no máximo. Quando eu descobri isso foi libertador.

BPC – E como começou tua história com as Pedalinas?
AC - Eu começei a fuçar na internet sobre bicicletas e descobri a Bicicletada, as Pedalinas, todos os pedais noturnos da cidade, o cicloativismo etc, mas só como leitora, porque nem bicicleta eu tinha. Lá em Aracaju eu já conhecia o movimento Massa Crítica, mas não participava. Eu até assisti o documentário Sociedade do Automóvel, do jornalista Thiago Benicchio, que o pessoal da bicicletada passou em uma praça. Eu não tinha nem bicicleta na época. Então eu começei a ligar os pontos.

Eu entrei na lista da bicicletada e disse: eu quero uma bicicleta. Um amigo meu, sabendo que eu estava querendo uma bike, me ofereceu uma que ele tinha ganhado no primeiro São Paulo Bike Tour. Ele tinha feito melhorias nela, trocado peças etc e eu comprei dele. Foi a maior alegria da minha vida, a melhor aquisição que eu fiz em São Paulo.

A primeira vez que eu fui de bicicleta pra faculdade foi muito libertador. Eu fiz umas bizarrices, andei na calçada, na contramão, mas cheguei. No começo você não sabe como fazer, não tem auxílio pra andar de bicicleta em São Paulo. Saí uma hora antes de casa e cheguei em 10 minutos. Cheguei super suada, porque Perdizes é cheia de subida e descida. Com o tempo eu fui descobrindo o alforje, paralamas, coisas que você vai agregando conforme você vai gostando do negócio. Todo mundo ficou meio chocado, falando: “você nem é de São Paulo, como você é corajosa”.

Eu começei a ir sempre, enjoei de ônibus, tanto que meu Bilhete Único nem era mais usado. Nesse meio tempo eu fiquei descobri blogs e pessoas e me inscrevi para a bicletada. Quando eu cheguei aqui (Praça do Ciclista) eu já conhecia algumas pessoas da internet. Eu fui sozinha, porque eu não conhecia ninguém de São Paulo. Eles já me conheciam de me ver na rua. Eu era conhecida como menina da Porto (Seguros, responsável pelo UseBike). Em um mês eu fiquei amiga de um monte de gente. Foi paixão, um bichinho me mordeu. As Pedalinas vieram entregar panfleto durante a pedalada e o encontro era no sábado seguinte. Era o segundo encontro oficial, tinha umas cinco meninas, mas todas eram super experientes no pedal, eu era a mais nova.

Com as meninas das Pedalinas e as bicicletadas eu fui aprendendo caminhos, rotas, a me posicionar na via, como se comportar, regras, deveres, direitos, Código de Trânsito etc. Isso tudo foi bem gradual. Depois de um tempo eu vendi meu carro porque eu desisti de trazer e a bicicleta foi uma desculpa para eu não trazer de vez.

Com a grana da venda eu comprei a minha primeira bicicleta boa. Uma mountain bike. A bicicleta entrou na minha vida como um grito. Eu não vim para ficar muito tempo em São Paulo, eu vim pra estudar e ir embora. A bicicleta foi crucial pra eu me apaixonar por São Paulo, continuar aqui. Era para eu ficar só um ano e meio e eu já estou há três anos. Sem a bicicleta eu não iria aguentar a loucura e o caos de São Paulo.

A bicicleta me trouxe bem estar e muitos amigos. Hoje eu só ando de bike e uso transporte público eventualmente.



BPC – Como é a sua rotina?
AC - Minha rotina é meio louca. Eu hoje trabalho em Pinheiros e moro no centro. Eu pedalo todos os dias de casa para o trabalho e vice-versa, mas sempre no meio do caminho eu paro em algum lugar para falar com amigos. Já aconteceu de eu estar voltando pra casa e no meio do caminho eu encontrar um grupo de pedal noturno e me juntar a eles. Eu paro em bar, paro em cinema, aqui na Praça do Ciclista sempre tem alguém. Eu gosto muito de pedalar na avenida Paulista, para mim tem um peso muito simbólico porque foi onde eu fiz o meu primeiro pedal. Uma vez uns amigos me fizeram uma surpresa e foram me pegar no aeroporto de bicicleta. Estava chovendo muito naquele dia, mas eu me diverti demais. A bicicleta me trouxe tudo isso. A ponto de eu lutar para que haja melhorias na cidade. Eu abracei a cidade como se fosse minha. Eu luto por ela mais do que muita gente que mora aqui e eu nem voto aqui.

Eu fui adotada pelos ciclistas de São Paulo e adotei São Paulo. Não sei se eu vou ficar aqui pra sempre, mas estou super feliz.

BPC – Qual sua compreensão sobre os motoristas com respeito as bicicletas e como você se comporta no trânsito?
AC -
O trânsito não é nada amigável, não é convidativo. Tanto que as Pedalinas conseguiram apenas 30 meninas até hoje, o que é milagre. Em Porto Alegre, no primeiro passeio do grupo havia 40 meninas. Por quê? Porque o trânsito é hostil.

Por outro lado eu vejo que a cidade está buscando aceitar a bicicleta e apenas uma pequena parcela dos motoristas é bizarra. Mas a minha opinião é parcial porque eu sempre morei no centro onde o motorista respeita mais. Eu sinto que grande parte dos motoristas tem medo porque eles não sabem como você vai se comportar e acham que têm que fazer alguma coisa.

Grande parte dos problemas da bicicleta na rua pode ser resolvido com o posicionamento dos ciclistas na via. Se você sinaliza e orienta o motorista, o cara te entende e fala: “olha, ela sabe o que está fazendo”. O motorista é muito assustado e precisa ser auxiliado.

Visibilidade é importante. Alguns motoristas já me fizeram muito mal e me deixaram muita medrosa. Uma vez uma senhora me fechou de propósito, começou a me xingar de dentro do carro. As pessoas perderam a humanidade, o respeito, o trânsito enlouqueceu as pessoas. Eu tenho pena das pessoas no trânsito e sou tolerante até certo ponto porque eles são tão vítimas quanto a gente, vítimas de uma sociedade que dá valor a essa loucura, que estimula que você compre, que te vende uma liberdade que você nunca vai ter. A política pública é culpada por isso. Eu já fui igual a eles e você precisa se esforçar para sair dessa bolha, se você não estiver um pouco de esforço você cai na mesma rotina.

Aracaju é uma cidade plana, tem muita ciclovia, mas pedalar fora dela é um desafio, os carros correm muito. O que mais afasta as pessoas das ruas é a velocidade. Eu gosto de pedalar em São Paulo, já me acostumei. Os congestionamentos da cidade são os responsáveis pelo aumento de ciclistas porque aqui ninguém anda. O trânsito lento atrai as pessoas para as ruas, seja de bicicleta ou por outros meios.

As pequenas cidades se espelham muito em Sâo Paulo e até no trânsito eles copiam. Essa coisa que muito carro é sinal de desenvolvimento é um câncer. As pequenas cidades ainda têm chance de melhorar.

BPC – Como você faz para pedalar a noite?
AC -
Eu uso luzes, mas estão todas queimadas. Até as que eu trouxe do exterior, que diziam que era a prova d’água, queimaram. Luz é o principal em segurança. Capacete é um pouco mais polêmico. Eu larguei, não uso mais na cidade já faz um tempo. É uma decisão muito pessoal. Nos deslocamentos urbanos, se você não pega via expressa, só ruas de menor de velocidade controlada é mais tranquilo. Eu já caí na rua sem capacete e só ralei a mão. No fim eu acho a luva muito mais importante do que o capacete. Joelheira talvez até, porque eu já ralei muito o joelho (risos).

Eu incentivo as pessoas a usarem capacete, principalmente no começo, quando você cai até quando está subindo em guia. Na cidade eu não acho muito importante. O motorista tem que respeitar o ciclista, não importa se ele está de capacete ou não. E as pessoas da periferia que não têm recursos? E aqueles que trabalham como bike courriers e que não usam? Eu acho que quem quer, tem que usar mesmo. Segundo o Código Brasileiro de Trânsito não é obrigatório. Com o tempo você vai descobrir o que é melhor para você. Para mim, os itens de segurança obrigatórios são as luzes e luvas.

BPC – Fale um pouco da história das Pedalinas.
AC -
Veja a resposta aqui.

BPC – Como é a mulher no trânsito de São Paulo hoje?
AC -
A bicicleta é uma ferramenta incrível que proporciona auto-estima principalmente para a mulher, que tem lutado por mais espaço na sociedade. As Pedalinas são importantes por isso, tem o blog com informações e estimulou grupos de ciclistas femininas em outras cidades e regiões. A bicicleta deixa a mulher mais independente e é uma ferramenta poderosa de transformação social.

BPC – E para a menina que se preocupa com a transpiração e não pedala por causa disso. Que dica voce dá?
AC -
Não tem uma regra, meu conselho é sempre o mesmo. Começar de final de semana, conhecer suas rotas e trajetos, procurar na internet as rotas mais legais, conversar com pessoas na rede que já fazem isso. Não ir direto com a cara e com a coragem, é tudo um processo. Com o tempo você vai transpirar menos, as distâncias não serão tão grandes etc. Não adianta a pessoa comprar uma bicicleta e sair na rua. Procura saber a distância para o seu trabalho, se lá tem chuveiro, chama alguém para te ajudar no começo, sai mais cedo para pedalar para ir num ritmo mais tranquilo. Se não dá para pedalar com a sua roupa do trabalho, leva na mochila algumas peças de roupa, deixa outras peças no escritório, enfim, cada caso é um caso.

É importante começar devagar. Você precisa se acostumar com o barulho e a dinâmica do trânsito, como se portar, suas vias, suas roupas, seu jeito. Pedalar é muito gostoso e a bicicleta é muito sedutora. Quando o trânsito para eu acho que as pessoas nos carros devem ficar mordidos (risos). Imagina uma menina passando. Para um homem no volante é quase um soco no estômago.

Ao mesmo tempo você percebe que em alguns lugares você precisa ter velocidade, que não dá para ir muito devagar. Todo motorista está disposto a ser incomodado, porque em todo momento ele é incomodado por tudo. Mas ele não está disposto a ser atrapalhado. E eu não estou dizendo que a bicicleta atrapalha. Para mim, em momento nenhum a bicicleta atrapalha. Ao contrário, é sempre uma solução.

BPC – Qual a sua opinião sobre as ciclorotas? O que você prefere?
AC -
Primeiro, é preciso conscientizar o motorista que ele tem que respeitar a bicicleta. Não é porque ele gosta ou não, mas porque se ele não respeitar tem multas e punições que devem e precisam ser aplicadas.

Eu acho que tem que ter ciclovias nas vias de fluxo rápido, porque os carros correm muito. Mas essa não pode ser a única solução porque é impossível você fazer ciclovia na cidade inteira. No mundo ideal elas não estão presentes, ao contrário o respeito impera. Ciclovias têm importância nas vias de fluxo intenso, pesado e rápido.

Ciclorotas e vias alternativas são muito importantes e essenciais. A importância da ciclorota é mostrar para os ciclictas que existem alternativas. Além disso, é importante sinalização no chão para mostrar que tem bicicleta ali, é legítimo. E se o ciclista vier para uma via que não tem ciclovia, ele não pode ser discrimado ou ameaçado, por isso eu falei que tem que ter educação.

BPC – O prefeito de São Paulo Gilberto Kassab quer implementar um dia a mais da Ciclofaixa de Lazer um dia da semana no mês para que o motorista se acostume a dividir a via com o ciclista. O que você acha da ideia?
AC -
Eu tenho um pouco de medo e não olho com tão bons olhos assim. Porque primeiro a Ciclofaixa de Lazer é para o lazer não para deslocamentos. Ela está toda errada e não é para meio de transporte, ela está do lado esquerdo da via e não foi pensada para o transporte. Ela é como se fosse um parque linear. Eu acho incrível ter um parque linear. Adoro pedalar lá aos domingos, mas a gente não pode ver aquela estrutura como iniciativa de mobilidade.

O meu medo é o Kassab abrir uma vez por semana colocar cones e fechar cruzamentos, mobilizar pessoas com bandeirinhas, agentes da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), porque isso gera um gasto público, e isso não ter demanda. O trajeto da ciclofaixa é limitado de espaço e hora, as pessoas que estão ali no geral não vão deixar o carro em casa para sair de bicicletas, porque o percurso não contempla o destino delas. Domingo bomba porque é lazer, durante a semana não. Enquanto tem estrutura tudo bem, mas você deseduca o ciclista. Quem pedala sabe que a faixa da esquerda é a mais perigosa.

BPC – O que você pensa sobre o ciclista que adapta as regras de trânsito de acordo com a necessidade?
AC -
A bicicleta não é aceita oficialmente como meio de transporte na cidade. O cclista urbano hoje adquiriu hábitos de sobrevivência. Se o poder público não me dá visibilidade, eu vou procurá-la. Eu respeito muito pedestre, mas ao mesmo tempo eu furo faixa. Na Europa existe um negócio chamado Bike Box, que fica na frente da faixa de pedestres e que dá espaço e tempo suficientes para o ciclista ganhe velocidade. No dia que fizerem algo pensado aos ciclistas pelas pessoas que pedalam eu vou respeitar ao máximo. O ciclista urbano tem procurado maneiras de sobreviver no trânsito. Eu não vou concorrer com o carro senão eu vou morrer, óbvio. O dia que tiver um código para bicicleta, pensado e formulado por ciclistas eu vou respeitar.

BPC – Que ideia você apresentaria para a Secretaria de Transportes em favor do ciclista urbano?
AC -
A primeira coisa é multar e punir quem não respeita bicicleta. Começar a aplicar as leis. Hoje um babaca acelera contra ciclistas em Porto Alegre porque ele sabe que vai responder em liberdade. Outra coisa é reduzir velocidade. Eu prefiro que me ultrapassem mais devagar a meio metro de distância do que passar correndo a três metros em alta velocidade.

BPC – Quantas bicicletas você tem?
AC -
Eu tenho três: uma fixa, que eu uso no dia a dia; uma MTB para compras, viagens e dias de chuva; e uma Dahon, que é intermodal e que eu uso para viajar, caronas, para sair etc. Eu posso beber e no fim da noite dobrar, por no porta-malas de um táxi e ir para casa.

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